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A Afrofilosofia do Rapper Brasileiro Rincon Sapiência

Postado por Alisson Prando / 2 April, 2018

Como o paulistano Rincon Sapiência transformou-se no ato musical mais potente e importante da cena musical brasileira?

De Wesley Safadão a Tarantino, de Chico Rei a Street Fighter, o arsenal de rimas de Rincon Sapiência, o maior rapper brasileiro em atividade, perpassa pela cultura POP, literatura e a história do Brasil.

Nascido na Cohab I em Itaquera, zona leste de São Paulo, Danilo Albert Ambrósio ganhou o apelido de Rincon em homenagem ao jogador colombiano Freddy Rincón, ídolo no Palmeiras e Corinthians nos anos de 1990. Já Sapiência é uma referência à sua busca por conhecimento, que vai da astrologia à filosofia. Ainda na infância, Rincon entrou em contato com a música, seja através das rádios ou da televisão:

A dança e a gana que eu tenho em ser um show man, tem muito do Michael Jackson. O romantismo tem influência do pagode dos anos 90, levo também a acidez do rock também dos anos 90, reggae, música eletrônica… Acredito que tudo que absorvi de música na minha vida aparece no meu trabalho, alguns detalhes de forma sutil e outras já mais explícitos.

Rincon Sapiência

Com rimas soltas e variedade sonora, Rincon Sapiência já é uma figura icônica do hip-hop brasileiro

Nem sempre a coisa foi fácil para Rincon. Mesmo produzindo rap desde os 15 anos, quando teve a banda Munições da 38, foi só aos 25 que ele passou a viver do rap enquanto artista, enquanto profissão. Ainda hoje, ele é um artista independente:

Esse esquema mesmo de forma independente exige muito trabalho em equipe, estratégia, diria que perseverança e sorte são detalhes que contam também. O fato de eu me cobrar muito e querer sair da mesmice foi um ponto de partida forte para querer arquitetar novos rumos.

Rincon Sapiência

Rincon Sapiência, Karol Conká e Rael celebram o futebol no novo clipe de “Resenha de Futebol”

Antes de ganhar prêmios como Multishow, Sapiência foi office-boy, panfleteiro, estoquista e atendente de telemarketing. Também desistiu de ser jogador de futebol para dedicar-se inteiramente à música: felizmente, seu rap hoje em dia é tão ágil e cortante quanto os melhores dribles dos jogadores da Copa. Sobre um dos trampos mais “furados” que pegou em sua transição de “mais um artista da quebrada brasileira” para “rapper mais promissor dos últimos tempos”, Rincon comenta:

Foi um trampo que fiz com prazer, mas quando criaram o acelerador de partículas LHC, existia um rap gringo que falava a respeito. Me passaram a tradução desse rap e me pediram pra fazer uma versão brasileira, foi puxado manter as rimas em português sem perder a coerência da informação. Foi um dos meus primeiros trabalhos remunerados com o rap, mas quando me vejo cantando aquele monte de verso científico, naquele clipe com efeitos estilo Chapolin acho bizarro.

Rincon Sapiência

O artista escreve músicas sobre temas-problemas da contemporaneidade com muita música brasileira

Não é só através das rimas afiadas sobre racismo e política. A moda há tempos tem sido amiga de Rincon Sapiência, não por acaso em ‘Afro Rap’, seu novo single ele anuncia que é um ‘criolo de saias’. Para o ensaio de seu premiado disco ‘Galanga Livre’, produzido pelo selo Boia Fria, ele usa trajes incríveis e incomuns:

Moda é algo que caminha junto do meu trabalho, impossível descolar um do outro, sem contar que admiro artistas como Pharrell, Will.I.Am, Andre 3000, Ney Matogrosso, David Bowie, artistas dos quais são impossíveis criar um imaginário sem pensar em uma identidade visual forte. Gosto muito de trazer elementos “clássicos” e adaptá-los ao urbano.

Rincon Sapiência

Primeiro álbum do Mc mistura sonoridade única e poesia politizada ao abordar a afrodescendência

No Prêmio Multishow do ano passado, o impacto de Sapiência foi tamanho que ele disputou várias indicações com ninguém menos que Chico Buarque, um dos artistas mais lendários da história da música brasileira. Por conta disso, não é surpresa que Rincon lance uma espécie de desafio quando eu lhe pergunto que pergunta ele faria a qualquer figura icônica brasileira se pudesse: 

“Queria saber de Chico Buarque se os letristas de hoje do rap se equivalem aos letristas de sua época. Especialmente considerando que não temos a formação acadêmica que muitos deles tinham…”

Não sabemos se Chico Buarque vai responder à pergunta de Sapiência, mas sabemos sim que o rapper é um dos artistas em atividade responsáveis por oferecer novas perspectivas e autoestima para pessoas negras, e também por tabela, comunidades minoritárias como as pessoas LGBTQIA, as mulheres e a esquerda brasileira. Através de ritmos como samba, candomblé, hip-hop, música eletrônica, várias vezes, em “Galanga Livre”, ele passeia por versos que respeitam as vivências das mulheres.

Rincon Sapiência

Rincon se inspirou na moda africana, dos dândis, para fotografar seu novo álbum, explorando chapéus, charutos e paletós coloridos

Chico-Rei, personagem conhecido na tradição oral de Minas Gerais, já foi tema de filme, de samba-enredo, de música do Milton Nascimento e ainda apareceu em alguns poemas do livro O Romanceiro da Inconfidência (1953), da Cecília Meireles. A maior parte das histórias do folclore mineiro contam que Chico-Rei juntou ouro das minas para poder trocá-lo por sua alforria, de seu filho e de seus irmãos africanos, que posteriormente o proclamariam rei de Ouro Preto. Na faixa de introdução do disco e na música seguinte, “Crime Bárbaro”, no entanto, o rei-escravo mata seu senhor e é obrigado a fugir para, só assim, alcançar sua liberdade.

O disco ainda versa sobre política, violência, negritude e o futuro da esquerda, Rincon opina:

“Acredito que os grupos minoritários, nós estamos trabalhando nisso há um tempo, todos se articulando ganhando voz e espaço. Agora se tratando de política, eles têm o controle da máquina, da imprensa, é desleal. O lance é manter a luta, usar o poder da arte pra disseminar as ideias e aguardar cenas dos próximos episódios. ”

Rincon Sapiência

Rincon Sapiência integra o mais novo projeto musical da cantora Iza, participando do single e clipe de “Ginga”

Um dos temas mais falados no início do ano no Brasil é a decisão de Crivella por “intervir” nas favelas cariocas através de forças militares, o que desestabilizaria ainda mais um território que é cotidianamente marcado por violências físicas e também simbólicas:

“Existem pessoas influentes envolvidas com tráfico, com seus aviões e aeroportos, mas onde a guerra é estabelecida é na favela, é lá que as pessoas morrem, existe uma profundidade muito grande esse assunto, polícia matando nos becos e o discurso: “diga não as drogas” é ineficaz. ”

Em mais de dez anos em atividade, enquanto a mídia ensina os reacionários a baterem panela, Rincon Sapiência segue convidando para revolução, e ensinando a bater tambores. Solta o play nessa playlist potente:

Fotos: ®Reprodução

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