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Pantera Negra
Fashion

Por Dentro da Estética Afrofuturista de Pantera Negra

Postado por Alisson Prando / 23 February, 2018

Produção da Marvel marca novo padrão para filmes de super-heróis através de trama que versa sobre política e raça.

‘Pantera Negra’, novo filme de Ryan Coogler é uma das maiores apostas da Marvel para esse ano, e não é para menos: tanto a indústria cinematográfica, quanto o diretor sabe que os debates raciais nos Estados Unidos de Trump estão inflamados e acirrados.

Pantera Negra

O jovem ator Chadwick Boseman interpreta o protagonista Pantera Negra

Para a produção multimilionária a Marvel investiu num time de peso: além de Ryan Coogler (responsável por filmes como ‘Frutivale Station’ e ‘Creed’), a trilha sonora é assinada por Kendrick Lamar, rapper que acaba de ganhar prêmios Grammy por seu mais recente trabalho.

As músicas inspiradas pelo filme estão no álbum da trilha sonora original: contém cinco faixas de Kendrick, produtor da trilha do filme junto com Anthony “Top Dawg” Tiffith, da Top Dwag Entertainment. O disco tem ainda produções de outros artistas como The Weeknd, SZA, James Blake e Khalid – contando com bases percussivas impressionantes e também timbres eletrônicos. A expectativa é que a trilha venda milhões de cópias ao redor do mundo.

Pantera Negra

As atrizes Lupita Nyong’o e Danai Gurira interpretam as personagens Nakia e Okoye respectivamente

No elenco, Chadwick Boseman interpreta o Pantera Negra e Michael B. Jordan interpreta o vilão Erik Killmonger. Completam o time Lupita Nyong’o e Danai Gurira, que interpretam Nakia e Okoye respectivamente. O figurino, parte deslumbrante do filme, é assinado por Ruth Carter.

Pantera Negra

O figurino do filme é assinado por Ruth Carter

Por conta da visão reducionista que grande parte do Ocidente tem sobre a África, Ruth Carter teve de trabalhar horas a fio com seus ilustradores para garantir figurinos de qualidade para o filme. A maioria das pessoas pensa que a África é um lugar de pobreza, que é um lugar onde seria praticamente impossível encontrar a extravagancia de Maria Antonieta e sua corte francesa.

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O afro-futurismo foi a estética escolhida para dar luz aos ricos figurinos de Pantera Negra

Entre as milhares de ilustrações e post-its dispostas pela equipe de cinco ilustradores do filme, a estética que mais se destacou foi o afro-futurismo. Para quem não está familiarizado com o termo, o afro-futurismo é um movimento estético que bebe não apenas nas águas do futuro, mas também nas águas do passado, buscando inspirações no hi-tech, no sci-fi e na ancestralidade. Pluridisciplinar, o afro-futurismo pode ser encontrado nas artes plásticas, música, moda e também no cinema – como é o caso de ‘Pantera Negra’.

Pantera Negra

Ilustrações conceituais do artista Keith Christensen para os figurinos dos personagens T’Challa e Nakia

O movimento visa resgatar a história, mitologia e cosmologias africanas com a tecnologia, a ciência, o novo e inexplorado. Foi em 1994 que o afro-futurismo se tornou de fato um movimento cultural, graças ao escritor americano Mark Dery, que trouxe para um ensaio batizado ‘Black To The Future: ficção científica e cybercultura do século XX a serviço de uma apropriação imaginária da experiência e da identidade negra’, a definição da estética futurista afro.

Uma síntese de referências encontradas ao longo dos séculos foi utilizada em ‘Pantera Negra’. Ruth e sua equipe buscaram inspirações em tribos indígenas. Ramonda, rainha de Wakanda, usa dismórficos, peças de alta costura que certamente teriam feito figuras históricas terem inveja. Um dos figurinos mais estupendos de Wakanda é uma jaqueta escultural em forma de lua, com chapéu tradicional Zulu. São momentos assim que são vitais para o espectador de ‘Pantera Negra’. É uma refutação artística contra a hegemonia histórica que conta o tempo inteiro que os colonizadores europeus “salvaram” os africanos.

“Estamos a olhar para um mundo que existe sem colonização”, diz Ruth. “Utilizei as tradições, os corantes e os adornos que as tribos indígenas fizeram e usaram de forma futurista”.

Pantera Negra

A atriz Angela Bassett interpreta Ramonda, rainha de Wakanda, terra natal do Pantera Negra

Essa não é a primeira vez em que Carter participou de filmes onde debates étnicos são pautados fortemente: ela foi responsável também pelos figurinos de ‘Malcom X’ e ‘School Daze’, ambos do diretor Spike Lee. É difícil acreditar, porém que esse é seu primeiro filme de super-heróis, tamanha a grandiosidade de seu trabalho. Para compor as peças icônicas de ‘Pantera Negra’, Ruth diz que ouvia ‘Say it Out Loud’, hino negro de 1968 do cantor James Brown: “Sou negro e me orgulho disso”, ele entoa a partir de timbres funk. Para Carter, a moda do mundo de Wakanda é sobre desligar-se de todos os moldes ocidentais: “Nós criaremos nosso próprio molde. A hora é agora”, ela diz.

Pantera Negra

Ilustrações conceituais do artista Keith Christensen para os figurinos dos personagens guerreiro Border e M’Baku

A moda africana sempre foi cosmopolita, e Carter teve o cuidado de não descrevê-la como algo cristalizado no passado. Os designers contemporâneos do continente africano estão sempre remixando a tradição, criando silhuetas inovadoras e combinando estampas e texturas. Ruth Carter e sua equipe colaboraram com várias casas de moda de vanguarda para refletir a variedade de alfaiataria e produção têxtil que mantem a atual cena da moda africana fértil e ansiosa.

Pantera Negra

Ilustrações conceituais do artista Keith Christensen para os figurinos da personagem Nakia

Ela ficou atraída pela confecção impecável de inspiração ganesa de Ozwald Boateng, bem como dos têxteis floridos de Ikiré Jones, que reimaginam a cultura nigeriana através da alta arte renascentista. O MaXhosa da África do Sul por Laduma, com sua malha futurista baseada em impressões gráficas de Xhosa, e as peculiares silhuetas e cor de choque de Duro Olowu – o designer nigeriano que vestiu Michelle Obama – adicionam toques vanguardistas. Juntos, esses estilos canalizam um espírito transgressor, futurista, algo como uma espécie de afropunk.

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O ator Michael B. Jordan interpreta o vilão Erik Killmonger em Pantera Negra

Para vestir o vilão Erik Killmonger, Ruth Carter rascunhou figurinos específicos inspirados por figuras como rappers:

“A jaqueta jeans usada na cena do assalto foi uma das peças mais adoradas por Michael B. Jordan. As botas Balmain também – acho que no mesmo dia, ele comprou um par daquelas para ele. O suéter H. Lorenzo que ele usa quando é coroado como o novo rei – quando ele o colocou, foi um daqueles momentos mágicos. Simplesmente parecia certo. Estava bem. Era bonito. E foi o que usamos. Havia muito poucas peças, mas cada peça funcionava.”

Enquanto os filmes americanos de moda como ‘O Diabo Veste Prada’, ‘Sex and the City’ e ‘Os Delírios de Consumo de Becky Bloom’ elevam a alta costura europeia, ‘Pantera Negra’ olha para a África, e talvez esse seja justamente seu ponto revolucionário.

Pantera Negra

Figurino rico em detalhes que mixa tradição e contemporaneidade em Pantera Negra

Perguntando-se quase o tempo inteiro “o que significa ser afroascendente?”, ‘Pantera Negra’ é um deleite para os olhos e ouvidos – seja por sua trilha-sonora, o roteiro redondo ou por seu colorismo impecável. É um desses filmes que tem a potência suficiente para ensinar lições diversas ao audiovisual como um todo, e mais do que isso, inspirar e empoderar crianças, adultos e adolescentes que carecem de heróis negros.

Fotos: ®Reprodução

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