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Entenda Toda A Sinfonia Niilista na Obra Musical de Tim Bernardes

Postado por Alisson Prando / 2 March, 2018

Em primeiro disco solo, Tim Bernardes traz orquestração intimista e sublime eu-lírico niilista.

Aclamada pela crítica especializada, a banda O Terno, formada por Tim Bernardes, Guilherme D’Almeida, Gabriel Basile, angaria milhares de fãs por onde passam ao redor do mundo.

No ano passado, Tim Bernardes lançou ‘Recomeçar’, primeiro disco solo, onde ele deixa mais intimista o universo POP iniciado em sua banda:

“Quanto mais coisa legal eu conseguir fazer enquanto estiver vivo, melhor: acho que esse é o objetivo. O público d’O Terno ficou contente de conhecer esse meu trabalho novo, tem gente que está conhecendo as coisas por esse trabalho, então, dá uma multiplicada nos lugares onde eu posso atuar e como compositor, também é bom mostrar outros lados”.

Tim Bernardes

Tim foi produtor, diretor musical, tocou a maioria dos instrumentos e ainda compôs os arranjos sinfônicos. Contou também com a participação de Marina Melo, Felipe Pacheco, Felipe Nader, no disco que tem foco em piano, violão e instrumentos clássicos:

“O estúdio foi uma parte legal, de colocar na prática coisas que eu já tinha na imaginação. Eu tinha muitas ideias na cabeça, já tinha os arranjos estruturados, já tinha feito os esboços, eu já tinha muito claro, mas foi no estúdio mesmo que eu comecei a pôr em prática. Eu tinha vontade de colocar o pessoal com quem eu já tinha trabalhado, que era a Marina que toca harpa, Pacheco no violino e os meninos do sopro. As canções eu já tinha todas e já imaginava como uma se misturava com a outra…”.

Tim Bernardes

‘Recomeçar’ sai pelo Selo RISCO, criado em 2013, por Gui Jesus Toledo e Guilherme Giraldi, que nasceu com o objetivo de “alinhar” a cena de música independente em São Paulo, são bandas e músicos como Grupos musicais como O Terno, Charlie e os Marretas, Memórias de um Caramujo, Luiza Lian, Grand Bazaar, Mojo Workers, Noite Torta, Caio Falcão que dão vida ao RISCO:

“O RISCO foi uma coisa que surgiu naturalmente: algumas bandas amigas gravavam nesse estúdio do Gui Jesus Toledo, que é o Canoa, e as bandas já participavam um da banda do outro ou faziam show junto. Chegou num momento que o Gui propôs uma coisa concreta para oficializar o elo que tinha entre essas bandas que seria ser um selo de vinil. Eles prensariam os vinis dessas bandas, em parceria com essas bandas…. Esse foi o embrião da coisa. E como pretexto para a gente fazer coisas juntos e misturar e juntar todo mundo no estúdio… E de lá para cá o selo foi se desenvolvendo para cada banda ter o seu modelo. O Terno, por exemplo, tem a lojinha que é com o RISCO. Então cada banda combina seu próprio acordo, diferente da estrutura rígida de uma gravadora antiga.”

Tim Bernardes

Quando surgiu o RISCO, o grupo acabou chamando atenção da imprensa, ganhando chamadas em grandes jornais como Folha de São Paulo ou o jornal britânico The Guardian, que presumiram que o selo podia ser uma espécie de ‘nova Tropicália’, movimento estético brasileiro que nos anos 70 alinhou as obras de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Jards Macalé e outros:

“O RISCO não está tanto como um movimento musical, ele é mais um grupo de amigos. Eles organizam e administram esse selo por amor a música, e a gente quer fazer um catálogo bacana, com músicas que nós gostamos. Ser um movimento estético não é a proposta, nunca foi, pelo menos por enquanto”.

Tim Bernardes

Um dos maiores destaques de ‘Recomeçar’ são suas composições, com um eu-lírico desesperançado, desolado e niilista. É como se Tim Bernardes refletisse tanto seu quotidiano amoroso e pessoal, quanto o panorama político de seu país. Em “Tanto Faz”, primeiro single do disco, ele diz:

“Ninguém é capaz de opinar se ouvir só um lado, e se olhando com calma o buraco está bem mais embaixo, vai ter copa, vai ter carnaval, mas continua errado, nada é justo ou injusto se não há justiça de fato, tanto faz”:

“O contexto afeta bastante o compositor, mas não necessariamente de um jeito direto: eu não sinto a necessidade de ter que falar sobre política. Gosto mais do que falar de uma bandeira, falar de uma sensação, um sentimento que eu tenho; porque, isso é realmente uma coisa que eu tenho alguma autoridade para falar. Não é uma coisa que eu estou mentindo, é um relato de alguém, da minha idade, da minha geração, vivendo esse período… O ‘Recomeçar’ tem muito disso. Eu falo sobre coisas pessoais, mas tem muitas coisas universais. São sentimentos que muitas outras pessoas podem estar sentindo isso, e identificar e colocar, encaixar na própria vida.”

Tim Bernardes

Com três discos bem-sucedidos, O Terno também conta com uma boa videografia: os clipes são sempre bem dirigidos em termos de arte e fotografia, criando inclusive relações com a moda. O resultado são fãs que muitas vezes se apresentam esteticamente como Tim ou os membros da banda, seja em festivais como Primavera Sounds, Lollapalooza, ou no show de estreia da turnê de ‘Recomeçar’ no Auditório Ibirapuera. A maratona de shows desse disco solo começa mesmo em 2018, mas Tim já antecipou a empreitada apresentando-se em um cenário que imitava seu quarto num dos palcos mais importantes de São Paulo:

“Minha relação com a moda sempre partiu muito da música, uma extensão da estética musical. Querendo comunicar artisticamente. Gostava de ver os Beatles e ficar me ligando em como eles se vestiam ou outras bandas dos anos 60 ou o mesmo o Tropicalismo; o indie é muito interessante, desde Strokes até hoje em dia. Com uma estética musical que faz muito sentido, você explica uma coisa, as vezes uma coisa que está fora de moda, algum tipo de roupa ou coisa assim, ela aparece misturada com a nova moda. Eu gosto muito de procurar coisas em brechó, não tem uma marca especifica que eu goste.”

Quando peço pra Tim revelar um segredo sobre ele mesmo, o artista de 26 anos responde:

“Poxa, eu sou viciado em açúcar, Coca-Cola, chiclete, bala. Eu amo doces. Mesmo”.

Fotos: ®Reprodução

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