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Stanley Kubrick
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O Pós-humanismo, A Misantropia e A Anarquia de Stanley Kubrick

Postado por Alisson Prando / 23 April, 2018

No ano de comemoração em que faria 90 anos, Stanley Kubrick permanece como fonte inesgotável para as artes do cinema e fotografia.

Um dos cineastas mais aclamados do século 20, Stanley Kubrick presenteou o público com clássicos inestimáveis como ‘Laranja Mecânica’, ‘O Iluminado’, a adaptação para os cinemas de ‘Lolita’ de Nabokov, e ‘2001: Uma Odisseia no Espaço’.

O diretor Stanley Kubrick trafegou por vários gêneros cinematográficos como – drama, policial noir, suspense, filme de guerra, histórico, aventura, épico, ficção cientifica, comédia e terror, construindo assim uma obra autoral de temáticas e épocas históricas retratadas bastante diversas, com sua mise-en-scène moderna, roteiros premiados e direção de arte requintada e personalíssima.

Stanley Kubrick

O diretor e roteirista americano Stanley Kubrick no set de seu filme Barry Lyndon em 1975

Todos os seus filmes trazem uma visão irônica e pessimista a respeito do ser humano. O diretor era conhecido por ser perfeccionista, o que gerava algumas brigas nos sets com os técnicos e principalmente com os atores. Com exceção de seus dois primeiros filmes, todos os demais são adaptações literárias, e todas elas foram reprovadas pelos seus autores.

Kubrick nasceu em 26 de julho de 1928, em Manhattan, em New York. Era filho de um casal de judeus, Sadie Gertrude e Jacob Leonard Kubrick. Seu desempenho na escola, com baixas notas, preocupava o pai. Apesar da dificuldade na escola, ele era considerado inteligente, na esperança de uma melhor performance no mundo acadêmico seu pai o enviou para Pasadena, Califórnia. De volta ao Bronx, a partir dos 13 anos, Kubrick começou a se interessar por xadrez, fotografia e jazz. Aos 16 anos, enviou uma foto que havia feito de uma banca de jornais com a notícia da morte do presidente Franklin Roosevelt, para a revista Look, que a comprou. Aos 17, Kubrick ganhou o primeiro e único emprego de fotógrafo aprendiz da história da revista.

Em 1950, ele investiu as economias num documentário de curta-metragem, chamado ‘Day of the Fight’, sobre o mundo do boxe. Em 1953, com a ajuda da família, fez o seu primeiro longa-metragem, ‘Fear and Desire’, no qual já aparece o tema mais recorrente da sua carreira: a guerra. As filmagens foram estressantes e arruinaram o seu casamento com Tora Kubrick. Mais tarde, Kubrick passou a considerar o filme bastante amador, e impediu o seu relançamento comercial em cinemas ou no mercado de vídeo.

Stanley Kubrick

Cena do drama psicológico de guerra de 1953, Fear and Desire, de Kubrick, seu primeiro longa-metragem feito aos 24 anos

Em 1955, Kubrick dirigiu, produziu, escreveu, editou e fotografou um filme noir chamado ‘A Morte Passou Por Perto’. O filme fez um sucesso razoável entre a crítica, que o considerou um cineasta promissor. O seu filme seguinte, o noir ‘O Grande Golpe’, é considerado o seu primeiro clássico. O filme conta a história de um grupo de bandidos que decidem roubar o dinheiro das apostas de uma corrida de cavalos, e surpreende pela sua narrativa não-linear.

O astro Kirk Douglas ficou tão impressionado com ‘O Grande Golpe’ que contratou Kubrick para dirigir o filme de guerra ‘Glória Feita de Sangue’. O filme fez com que Kubrick ficasse famoso no mundo inteiro, mas foi proibido na França pelo sua mensagem anti-guerra e por retratar os generais franceses de uma maneira negativa.

Durante as filmagens, Kubrick se apaixonou pela atriz Susanne Christian, que se tornaria Christiane Kubrick, a sua terceira esposa. Ambos ficariam juntos até a morte de Kubrick em 1999. Tiveram duas filhas: Anna e Vivian.

Stanley Kubrick

Encarte dos DVD’s de dois grandes clássicos do cinema de Stanley Kubrick

A parceria com Kirk Douglas continuou no épico ‘Spartacus’. Douglas, que além de estrelar também era produtor executivo do filme, se desentendeu com o diretor Anthony Mann e chamou Kubrick para substituí-lo. Douglas achava que Kubrick, com apenas 29 anos, iria se intimidar com a grandiosidade da produção e com o famoso elenco, e por isso iria assumir uma conduta humilde. Mas aconteceu o contrário. Kubrick vivia discutindo com Douglas, pelo fato do roteiro e dos personagens serem moralistas e perfeitos demais.

O filme ganhou cinco Oscars, mas Kubrick sempre renegou o filme por não ter tido nenhum poder de decisão. Decepcionado com Hollywood, Kubrick se mudou para a Inglaterra, onde permaneceria até a sua morte. O seu filme seguinte foi a adaptação do romance ‘Lolita’, de Vladimir Nabovok, que provocou escândalo ao retratar a relação de um homem adulto com uma menina de 12 anos. A adaptação foi feita com cuidado para evitar problemas com a censura, e foi bem recebido pela crítica. O seu filme seguinte seria ainda mais polêmico: ‘Dr.Fantástico’. Uma comédia sobre a Guerra Fria e estrelada por Peter Sellers.

O filme fez sucesso e quatro indicações ao Oscar. Com isso, Kubrick ganhou liberdade total para fazer o filme mais ousado da sua carreira: ‘2001 – Uma Odisseia no Espaço’, um filme enigmático e impressionante, que deu ao diretor o Oscar de Melhores Efeitos Visuais.

Stanley Kubrick

Para as cenas na superfície da Lua em 2001, Kubrick mandou importar, lavar e pintar centenas de toneladas de areia

Em seguida, Kubrick adaptou o romance futurista ‘Laranja Mecânica’, de Anthony Burguess. Dessa vez, Kubrick não amenizou o polêmico conteúdo do livro, e mesmo hoje, o filme continua chocante. Em 1975, Kubrick lançou um drama de época, ‘Barry Lyndon’, que foi muito bem de crítica, mas foi um fracasso de bilheteria.

Cinco anos depois, o filme seguinte de Kubrick foi ‘O Iluminado’, baseado na novela de terror de Stephen King, e que marcou o auge da fama de Kubrick como um diretor excêntrico. Sete anos depois, veio o filme de guerra, ‘Nascido para Matar’.

Seu último filme foi ‘De olhos bem fechados’, onde ele aproveitou-se do relacionamento entre duas das celebridades mais populares da época, Nicole Kidman e Tom Cruise, escrutinando suas intimidades num suspense de alta tensão, com visual deslumbrante.

Stanley Kubrick

Lançado em 1971, o polêmico Laranja Mecânica entrou na lista de filmes proibidas pela censura brasileira

CIRCUITO KUBRICK EM SÃO PAULO

O Curso de Stanley Kubrick no Centro de Pesquisa e Informação do SESC São Paulo

Para os acadêmicos, cineastas e curiosos, está rolando o curso ‘O Cinema de Stanley Kubrick: Gêneros, Autoria e Imaginário Social’ ministrado por Carlos Pereira Gonçalves, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e Professor do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo.

O curso traça um panorama compreensivo da filmografia de Kubrick, composta por treze longas-metragens que trafega por vários gêneros cinematográficos. O curso acontece as quartas-feiras, do dia 11 de abril até o dia 16 de maio, das 14h30 das 17h30 no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. Você pode obter mais informações aqui.

Stanley Kubrick

Famoso cenário construído por Kubrick para ser o Korova Milk Bar no filme Laranja Mecânica

Stanley Kubrick no Museu da Imagem e do Som

Há 50 anos o mundo via pela primeira vez um dos filmes mais influentes da história do cinema: “2001: uma odisseia no espaço”. Em julho, mês em que o cineasta completaria 90 anos, o Museu da Imagem e do Som em São Paulo hospeda uma Mostra de Cinema homenageando o diretor.

Entre os dias 24 e 29 de julho, o MIS exibe diversos clássicos do diretor norte-americano como “Laranja mecânica”, “O iluminado” e “Barry Lyndon” na Mostra Stanley Kubrick. Mais detalhes você encontra aqui.

Stanley Kubrick

Cena do filme O Iluminado de 1980, cuja estória é baseada no livro com o mesmo título escrito por Stephen King, em 1977

STANLEY KUBRICK NA LITERATURA

Stanley Kubrick: O Monstro de Coração Mole

Editora Perspectiva
Marcius Cortez

Cinco décadas de um cinema que fez brilhar os olhos do público de todo o mundo. Alguns o chamavam, não sem ironia, de “deus”. Outros, de “monstro”, também com todas as conotações possíveis do termo. Ele próprio se achava um ser especial. “Difícil”, “exigente”, “metódico”, “amigo”, “pessimista”, “despretensioso” foram outras palavras usadas para descrever Stanley Kubrick. Toda essa polissemia de sentidos de caráter, do autor e da obra, é esmiuçada por Marcius Cortez, que nos conduz, com leveza de texto e acuidade de foco, pela trajetória desse artista, do início como fotógrafo para até “De Olhos Bem Fechados”, seu último filme, entre outras obras-primas que, inseridas em seu contexto, biográfico e de época, deixam entrever as verdadeiras facetas d’O Monstro de Coração Mole que foi Stanley Kubrick. Encontre o livro aqui.

Stanley Kubrick

Conversas com Stanley Kubrick

Editora Ubu
Michel Ciment

Cineasta culto e exigente, senhor absoluto de seu meio de expressão, Stanley Kubrick produziu relativamente pouco; apenas treze longas-metragens em quase meio século de atividade. Foi o bastante para dar ao cinema meia-dúzia de obras-primas em diferentes gêneros, transgredindo sempre os limites destes últimos com seus filmes radicalmente originais, que desconcertam até hoje a crítica e o público. No livro Conversas com Stanley Kubrick, o grande crítico francês Michel Ciment faz o mais completo compêndio crítico da obra do recluso cineasta, unindo textos analíticos a entrevistas e depoimentos do próprio diretor e de seus colaboradores. Seu objetivo, plenamente atingido, é o de mostrar a coerência estética e filosófica por trás de obras aparentemente tão díspares como 2001 e O Iluminado, Lolita e Laranja Mecânica, Barry Lyndon e Nascido Para Matar. Em todos eles vibram as tensões entre razão e instinto, ciência e arte, amor e morte que caracterizam a filmografia de um dos grandes artistas do século XX. Encontre o livro aqui.

Stanley Kubrick

The Stanley Kubrick Archives

Editora Taschen
Alison Castle

Produzido por Alison Castle, The Stanley Kubrick Archives é um dos livros mais importantes sobre o cineasta. O livro-almanaque esmiúça até os últimos detalhes toda a obsessão perfeccionista de Kubrick, conta com documentos, roteiros, notas, rascunhos, testes de figurinos, e também uma seleção das melhores entrevistas do diretor. O resultado é um ensaio visual e meticuloso da jornada de Kubrick através do século 20. Encontre o livro aqui.

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Fotos: ®Reprodução

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