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Relacionamento Aberto em Tempos de Crise

Postado por What Else Mag / 19 September, 2017

Você já pensou sobre ter um relacionamento livre e aberto?

Amsterdã não é para mim o paraíso libertário que lhe fez famosa. Antes disso, essa cidade me remete aos canais, à Rembrandt e à arquitetura única com seus prédios pendentes. Mas um bom número de turistas ignora a “A Ronda Noturna”, um dos maiores tesouros artísticos da cidade, e vai direto para um CoffeeShop. Não que eu condene a conveniência da liberdade em relação ao consumo de substâncias recreativas, ou da legalidade do comércio de sexo pago, pelo contrário, sou um grande apoiador das liberdades individuais. Amor livre, inclusive, é o tema do meu primeiro livro, Poliamor & Relacionamento Aberto.

O livro é, diretamente falando, um manual para aqueles que queiram ingressar em um estilo de vida com menos amarras, mas não sabiam bem por onde começar. Eu trouxe um exemplar para a Holanda, onde vou passar um tempo trabalhando, como um presente para um casal de amigos que mora aqui. Uma capixaba e um holandês, que não têm e possivelmente nunca terão um relacionamento aberto ou poliamoroso. Eles, por mais cosmopolitas que sejam, são um casal em uma relação tradicional. Assim como grande parte do público que tem comprado o livro, não acredito que eles vão se converter ao estilo de vida. Talvez observem o conteúdo com curiosidade e achem tudo um pouco exótico, talvez os excite um pouco, ou talvez cause estranhamento, mas ninguém passa por este tema sem ser impactado.

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Mas e no Brasil? Vivemos em um país onde pessoas de vertentes religiosas fundamentalistas querem interferir no dia a dia de todo cidadão, independentemente das crenças ou ausência de crenças deles. O mesmo país onde homens querem impor legalmente às mulheres o que devem fazer sobre o seu próprio corpo, no caso de uma gravidez indesejada. Tudo isso me parece um imenso atraso.

Parte da minha decisão de escrever um livro sobre esse tema veio ao perceber que um movimento mais liberal nos últimos anos, em diferentes vertentes (incluindo os temas Poliamor e Relacionamento Aberto), vinha crescendo. E com ele veio uma força conservadora contrária. A balança parece pender às vezes para um lado, outras vezes para outro. Essas pessoas que não aceitam as mudanças, e que acreditam que o estilo de vida escolhido para elas deva ser universalmente imposto, tentam manter “tudo como sempre esteve”. Mas essa filosofia de início já é contraditóra, já que essas pessoas disseminam o ódio justamente através de ferramentas que só existem e são tão poderosas porque o mundo muda e continua mudando, que são as redes sociais.

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Então, ao abrir um relacionamento, uma das primeiras questões que o casal pode enfrentar, caso o faça de forma pública, é o julgamento dessas pessoas. Haja paciência e diplomacia, mas se vocês tiverem disposição e argumentos para enfrentar o desafiante, estarão fazendo um grande serviço para o mundo. Esses conservadores parecem não entender principalmente que, claro, ser tradicional é um direito deles, não há problema algum em seguir esse estilo de vida, o problema é querer que os outros quase 7 bilhões de humanos sigam o mesmo caminho. Essa imposição de costumes é tão absurda que não dá para imaginar como seria o mundo se todos fossem vegetarianos, ou todos fossem “de esquerda”, ou todo mundo gostasse de novela das seis… Certamente sem a diversidade teríamos um mundo mais chato, provinciano e preconceituoso. Para os que sonham em impor apenas um estilo de vida, e se incomodam tão profundamente com o outro, o melhor é se isolar da sociedade e viver numa cabana no meio do nada, plantando e caçando o que come.

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Os poliamorosos e casais liberais devem sempre abraçar a diversidade, literal e figurativamente. Não importa como se comporta quem você leva para a cama quando está fora dela (excluindo claro comportamentos ilícitos e intolerantes). Melhor até que não pense como vocês. Se essa pessoa, por exemplo, tem um gosto duvidoso para filmes, apenas não vá ao cinema com ela (ou melhor, abra mão do Woody Allen uma vez e assista à comédia pastelão que ela quer ver. Quem sabe você descobre algo novo?!). Permita-se conhecer as diferentes facetas dessa pessoa, descubra o que é novo, o que é diferente dos seus amigos e familiares. Outras opiniões políticas, outras classes sociais, outras formas de pensar… o convívio com a diversidade é muito mais interessante quando é realmente colocado em prática, ao invés de ser apenas uma frase pronta publicada no Facebook.

De volta à Holanda, a terra da luz dramática de Vermeer, onde há muito tempo o comércio abriu caminho para a tolerância religiosa, que por sua vez deu origem a uma nação com uma diversidade real, plural, cosmopolita, socialmente mais justa e sofisticada – até aqui essa liberdade às vezes é ameaçada. O candidato Geert Wilders, de extrema-direita (tudo que tem “extrema” no nome me assusta) perdeu as eleições este ano, mas foi por pouco. A Holanda quase coloca no poder o seu Trump. Ambos compartilham ideias xenofóbicas, protecionistas e um corte de cabelo que é realmente muito difícil definir. Politicamente falando, vale lembrar que a história prova que, independente do lado, qualquer extremo é sempre um desastre.

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Seria ideal, então, que todos os seres com pensamentos libertárias (poliamor, aborto, discussão de gênero, sexualidade, pluralidade de crenças) verbalizassem mais sobre o tema, defendendo a bandeira. Certamente há equívocos nos discursos de defesa destes, mas isso vai se equalizando e polindo com o tempo.

Se você se permitir ser uma pessoa poliamorosa ou com relacionamento aberto, terá a sensação, em alguns momentos, de que caminham quase num universo paralelo ao resto da sociedade. Como se algumas questões mundanas e banais que, envolvem alguns relacionamentos monogâmicos não fizessem mais parte de sua realidade. E isso dá uma sensação de liberdade incrível. Moldar o seu relacionamento ao que for mais conveniente para vocês é algo muito mais inteligente e maduro do que escolher um modelo pré-definido, por vezes enferrujado, e seguir com ele como única opção para o resto da vida.

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Ainda aqui na Europa, eu e meu companheiro jantando fora conversávamos com um casal hetero de meia idade na mesa ao lado. Eles nos abordaram pois queriam saber que língua era a que falavámos que soava “tão musical”. A conversa se estendeu um pouco e a certa altura a esposa do casal nos pergunta: “E vocês, são parentes?”. Eu, gay de uma geração que ainda era obrigada a conviver com mais preconceitos do que hoje, quando vou falar com pessoas de uma certa idade e desconhecidas, me encabulo. Mas enfrentei minha inibição e respondi sem pestanejar: “Somos casados.”, no que ela me devolveu também de prontidão: “Então são parentes.”. Talvez seja um pouco dessa forma pragmática de encarar e respeitar as particularidades alheias que deveríamos levar como filosofia de vida.

Por: Alexandre Venancio | www.livropoliamor.com.br

Alexandre Venâncio é designer e escritor, lançou o livro ‘Poliamor e Relacionamento Aberto’ pela Editora Panda Books.

Fotos: Divulgação

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