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Thiago Phetit
Fashion

Somente Garotos: Thiago Pethit Além da Moda e da Música

Postado por Thássio Marcelo Aragão / 1 June, 2017

O enfant terrible da música brasileira é o nosso convidado do mês de junho, clicado por Thaís Vandanezi com edição de moda de Filipa Bleck. Mergulhamos na estética rock’n roll com toque artsy de Thiago Pethit para estrear o editorial de capa da WE MAG. Em entrevista exclusiva, o artista expõe sua personalidade rebelde, suas opiniões sobre o mercado de música brasileira e se mostra emotivo ao homenagear Patti Smith.

Rebelde, talentoso, insinuante e transgressor – são quatro adjetivos que descrevem muito bem Thiago Pethit, artista paulista que surgiu na última década e deu tom a uma geração através de música eletrônica e rock’n’roll, além de uma imagem fulcrada em ícones subversivos, tais como Andy Warhol, Iggy Pop, Joe Dallesandro e Jim Morrison – uma espécie de olimpo vanguardista que transformou a sociedade nas décadas de 60 e 70.

Thiago Phetit

camisa RICARDO ALMEIDA – lenço HERMÈS – roupão ACERVO (STYLIST)

“Meu fascínio reside no que eles simbolizam e eu sou muito apegado a ícones, símbolos e mitologias. Esses nomes são quase que uma espécie de mitologia do século 20. Eles são arquétipos de transgressão, de novas normas, de novas sexualidades, de novas formas de compreender o capitalismo, a arte, etc. Tirando que são todos homens, nesse caso, não saberia dizer o que temos em comum. Mas eu carrego eles dentro de mim, nas minhas inspirações mais caras, como um chamamento mesmo. Como se tocando sob esses símbolos, eu pudesse passar a mensagem deles.” – Thiago Pethit

Thiago Phetit

camisa e calça RICARDO ALMEIDA – lenço HERMÈS – roupão ACERVO (STYLIST) – sapatos CONVERSE

Sofisticado em cada projeto que promove, a última empreitada de Thiago Pethit foi, ao lado de Leandra Leal, reinterpretar o clássico repertório de ninguém menos que Patti Smith, uma das multi-artistas mais importantes dó século 20. Para o projeto, Thiago alinhou as melhores musicistas que vem encabeçando bandas em São Paulo e no Rio de Janeiro: Larissa Conforto (baterista / banda Ventre), Mônica Agena (guitarrista / banda Moxine), Rita Oliva (tecladista / Papisa) e Stéphanie Fernandes (baixista). No show, Pethit revisita o álbum ‘Horses’ (1975) e sucessos como ‘Because The Night’ (1978) e ‘Dancing Barefoot’ (1979) com passagens de Leandra, que recita poemas e excertos dos livros de Patti, tais como ‘Apenas Garotos’ e ‘Linha M’. Quando pergunto o que Patti Smith significa à Pethit, ele se mostra demasiado tocado para conseguir responder:

“É difícil elaborar isso. Difícil responder essa pergunta, pois ela me toca num lugar muito sensível, muito pouco racional. Patti é uma artista que me inspira o melhor sobre fazer arte, música e sobre acreditar que a arte pode ser um catalisador de transformação social. Entrar no repertoria dela, de certa forma, é para mim uma maneira de me religar ao que existe de mais sagrado no fazer artístico. O mais fiel e legitimo. Todas as vezes em que fiquei descrente de mim mesmo, da minha música, da música em geral ou de uma cena cultural, eu recorri ao trabalho dela para encontrar sentido. Foi assim em 2011 quando li o ‘Só Garotos’ e tem sido assim neste momento, visitando as músicas e poemas que ela escreveu”. – Thiago Pethit

Thiago Phetit

camisa HERING – suéter DUDALINA – calça RICARDO ALMEIDA – sapatos ACERVO (STYLIST)

Quando o assunto é atuar, Thiago Pethit se sente nostálgico. Verdade que nos últimos tempos ele tenha cunhado de vez seu nome enquanto cantor e performer, mas suas origens estão no teatro, quando participou de uma peça aos nove anos ao lado de seus avós, daí para frente, chegou a estudar teatro em Buenos Aires, mas parou para se dedicar à música. Acostumado a dirigir obstinadamente cada um dos seus projetos, o virginiano abriu mão disso para ‘Amores Urbanos’, filme dirigido por Vera Egito e protagonizado por ele, Maria Laura Nogueira e Renata Gaspar. O longa conta a história de três amigos, que aos trinta e poucos sentem-se frustrados profissionalmente e afetivamente com as suas vidas em São Paulo, no entanto, rindo ou chorando a amizade deles perpassa os empecilhos.

“A experiência de fazer o filme foi maravilhosa! Gostaria muito de voltar a atuar com mais frequência. Existe algo de muito especial em se deixar viver outras vidas e outras ideias. Tanto pelo personagem quanto pelo projeto. Foi um dos poucos momentos na minha carreira nestes últimos 7 anos em que eu não estava na cadeira de diretor do meu próprio projeto. Então é bom deixar-se levar pela cabeça de alguém, como foi com a Vera Egito”. – Thiago Pethit

Thiago Phetit

camisa ACERVO (STYLIST)

São Paulo, aliás, tem forte conexão com Pethit, tanto em termos éticos, quanto estéticos – foi e é nessa cidade em que o artista se descobriu enquanto performer. Há poucos meses em parceria com o duo NoPorn, Thiago estreou a festa ‘Meteoro’, com performances, música eletrônica e improvisações ao vivo.

“Criar essa festa, para mim, teve menos a ver com a cena noturna ou com o desejo de criar festas simplesmente. E sim mais a ver com desejos pessoais e sonhos, e um afeto que tenho pela Liana e pelo Luca. Uma celebração por estar perto deles. Tem a ver com ter sido um fã do NoPorn desde os tempos do Xingu, de me lembrar de frequentar essas festinhas no fim da adolescência e pensar: ‘Nossa, um dia quero ser como eles. Cantar na noite. Cantar na pista, na fumaça de gelo, debaixo do strobo piscando sobre garotos bonitos.’

Thiago Pethit

camisa ACERVO (STYLIST) – calça ELLUS

Hoje em dia somos amigos, músicos, e poder realizar uma festa com eles, em que o mais importante são os lives criados de improviso junto com as bases do Luca e a voz e ideias da Liana, me diz mais do que qualquer coisa. Tenho saído bastante, agora que estou mais tranquilo de shows. Sinto que a cena da noite paulista se transforma muito rápido. Tem muitas coisas ao mesmo tempo acontecendo. Algumas parecem apenas cópias das outras. E algumas parecem ser muito mais do que festas. Em especial, só não entro muito na pira dessa cena com cara de ‘estamos em Berlim’. Prefiro por exemplo uma festa como a Mamba Negra, que tem a ideia de cultura eletrônica e techno como pilares, mas repensa isso nas performances e ambiências. É a mais brasileira e original e com um conceito fechado em si. Fora que é feita por duas garotas, e eu gosto muito dessa ideia. E a Tenda, que é uma celebração absoluta com cara de queer 90s Brasil também está na minha lista de mais frequentadas”. – Thiago Pethit

Thiago Pethit

camisa ACERVO (STYLIST) – calça ELLUS – sapatos CONVERSE

Com pegada rockeira e cheia de testosterona, na turnê de seu último disco ‘Rock’n’Roll Sugar Darling’, Pethit aparecia camaleônico, seduzia seu público, tirava a roupa, e nos shows mais quentes, chegava a beijar seus fãs:

“O palco, para mim, representa liberdade absoluta. Sinto como se corresse… Como se voasse… Como se fodesse… Como se morresse. Me sinto absolutamente livre. É um lugar real onde tudo que está sobre, é ilusão. É como uma espécie de terreiro ou espaço xamânico”. – Thiago Pethit

Thiago Pethit

Jaqueta ZOOMP – calça RICARDO ALMEIDA – sapatos CONVERSE

Parte do sucesso dessa era de Thiago Pethit foi a música construída em conjunto aos produtores Kassin e Adriano Cintra, até a imagem impressa cuidadosamente pelo fotografo Gianfranco Briceño, em lugares icônicos de Los Angeles. Foi nessa fase que o músico deixou sua relação com a moda mais estreita, posando para Alice Mag e Vogue, no entanto, ele se demonstra paradoxal:

“A moda já me importou mais. Ela me serviu como uma possibilidade a mais de comunicação, de expressão e de mensagem. É como se a roupa pudesse dizer por nós para além do que as palavras e os sons. Somos uma geração extremamente visual e existe toda uma construção e desconstrução de costumes que está pautada no que se veste e no que se mostra.

Acredito que justamente por isso, por fazer parte dessa geração e sentir que estamos todos um pouco saturados de mensagens visuais…. Não sei. Sinto que a moda pode ser também uma inimiga da comunicação. Abdicar dela pode ser importante, embora a gente esteja sempre vestindo algo e esse algo, mesmo não ‘pensado’ como comunicação, envia uma mensagem. Neste momento, gostaria de ser um artista sem rosto e sem imagem. Seria uma outra forma de pensar a (des)construção de costumes.” – Thiago Pethit

Thiago Pethit

Jaqueta ZOOMP – camisa ACERVO (STYLIST) – calça RICARDO ALMEIDA – sapatos CONVERSE

Musicalmente, o Brasil vive uma boa fase musical – nunca se produziu tanta música boa, no entanto, nunca também essa música foi de tão difícil acesso. Curioso pensar na quantidade de artistas que exploram sexualidades e desejos dissidentes agora, pois quando Pethit começou sua carreira haviam pouquíssimos artistas a explorar esses temas, agora há um segmento inteiro de música ‘queer’ sendo acoplado em comerciais de TV e internet. Enquanto os nomes mais populares continuam hegemonicamente heterossexuais, ainda existem fagulhas de resistência quando atos como Jaloo, Liniker, Johnny Hooker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Tássia Reis e Karol Conká aparecem, em cenas que se chamam Geração Tombamento e MPBicha – música que empodera identidades minoritárias, tais como pessoas LGBTQIA, negrxs e demais minorias.

“É necessário existir representatividade e sinto que essa cena contribui e muito para isso”, pontua Pethit.

Thiago Pethit

camisa LAVILLE – camiseta e calça RICARDO ALMEIDA

“Em geral, são todos bons artistas e para além de qualquer representatividade, tem algo especial nos seus trabalhos. O que me incomoda muito, desde quando eu surgi, por exemplo, numa cena de novos artistas de São Paulo, é essa ideia de ‘cena’. Eu entendo que isso traz força para cada um deles, e reafirma uma mensagem ‘em comum’ que poderia estar enfraquecida se fossem apenas um ou outro de tantos artistas que nos aparecem juntos. Mas isso também enfraquece todas as diversas mensagens de cada um: Jaloo é um artista do Pará, cheio de referências do eletrobrega, ao candomblé, à música POP, à Björk, As Bahias e a Cozinha Mineira estão calcadas em Gal dos anos 70, Karol Conká, tem outra pegada, outra estética musical. Mas de repente, estamos vendo todos sob um único prisma. Apagam-se todas as nuances para olharmos apenas para o que os conecta. E posso dizer por experiência própria, lógico que quanto mais longe um deles desponta, todos terão benefícios mercadológicos. Mas se um só toma uma decisão errada na carreira, é como se todos os outros também levassem a culpa. Eu não gosto disso. No fim, as cenas só servem ao capitalismo. Tanto para vender um slogan engajado, quanto depois, para jogar o cesto inteiro no lixo. Os artistas em si, acabam sendo os que menos se beneficiam de tudo isso, pois é algo que acaba fugindo ao controle deles.” – Thiago Pethit

Thiago Pethit

camisa LAVILLE – camiseta, calça e sapatos RICARDO ALMEIDA

Você pode ouvir Thiago Pethit no Spotify e segui-lo em suas redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter.

Créditos

entrevista e matéria ALISSON PRANDO
foto e tratamento de imagem THAÍS VANDANEZI (ABÁ MGT), assistente de fotografia CAMILO FERNANDES
produção de moda e styling FILIPA BLECK (ABÁ MGT), assistente de moda PEDRO DEL REI
beleza CRIS LOPES (AMUSE-MENT) com produtos L’OREAL PROFESSIONNEL, SHISEIDO e HOT MAKE-UP
direção criativa THÁSSIO ARAGÃO, produção executiva VINICIUS AGUIAR (BOSSA COMUNICAÇÃO)
agradecimento ESTÚDIO SANDRO AKEL

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