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Eduardo Casanova
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A poesia do abjeto no cinema de Eduardo Casanova

Postado por Alisson Prando / 13 June, 2017

Entrevistamos Eduardo Casanova, jovem diretor espanhol que entrou no nosso radar com sua arte provocante e que promete ser a nova revelação do cinema mundial.

Não há escapatória. Por mais que Eduardo Casanova, 26 anos, ator, roteirista e recente diretor de cinema espanhol minimize ao máximo os impactos que provoca em seu espectador, seu primeiro longa-metragem, ‘Peles’, disponível na Netflix, é uma experiência estética tão arrebatadora quanto ‘Salo’ de Pasolini, ‘Anticristo’ de Lars Von Trier ou ‘Calígula’ de Tinto Brass:

“Comecei a ver cinema muito jovem. Me lembro de ver “O Exorcista” com apenas 6 anos e os filmes de Almodóvar aos 12, que minha avó colocava. Os filmes que mais me influenciaram quando era criança (desde os 5 anos) foram os de terror. Me lembro de “A Profecia”, “A Cidade dos Amaldiçoados”, “O Exorcista”, “O Bebê de Rosemary” e “Tubarão”. Logo me apaixonei por Waters, Cronneberg, Lynch e Todd Solondz.”

Eduardo Casanova

Para a filósofa norte-americana e feminista Judith Butler, o ‘abjeto’ é um conceito que pensa nas vidas que, por conta da heteronormatividade (ou seja, o conjunto de normas sociais que de maneira coercitiva descrevem os corpos e identidades normalizados e os anormais) não deveria existir, e assim é excluído e, subalternizado e marginalizado. É como se existisse uma ditadura em relação aos corpos, o que torna basicamente a nossa sociedade doentia:

“Como um grande interessado nas ditaduras e no que elas implicam em uma sociedade, acredito na ditadura universal da beleza e da felicidade. Eu definitivamente não a defendo, penso que o fato de nos ser exigido sermos felizes e cumprir com os padrões de beleza estabelecidos constrói seres humanos frustrados. Existem muitas exigências sobre o corpo da mulher, por exemplo. É disso que trata “Pieles”, de nossas decisões sobre nosso próprio corpo. O filme se questiona se realmente somos os donos de nós mesmos, de nosso discurso e de nosso físico. Também fala da felicidade, mais especificamente de personagens que buscam a felicidade em lugares que podem ser horríveis para a maioria.”

Eduardo Casanova

Durante todo o tempo de sua película, o espanhol Eduardo Casanova prende o espectador numa narrativa surrealista, feita toda em tons de rosa, que acompanha três mulheres com corpos abjetos: Laura, uma menina que nasceu sem os olhos, Samantha, que que possui o ânus no lugar da boca e Ana, que tem uma parte de seu rosto com uma severa deformação. Todas buscando se auto afirmar e encontrar o seu lugar em uma sociedade cada vez mais adicta à normalização de tudo, sobretudo os corpos, identidades e comportamentos. Quando pergunto à Casanova qual é o melhor caminho para fugir da ditadura da felicidade e da beleza, ele escapa:

“Não sei qual é o melhor caminho para fugir de qualquer ditadura. O mundo inteiro é uma ditadura e sempre será, pois assim é o ser humano, precisa do poder para se sentir seguro.”

Eduardo Casanova

Eduardo Casanova começou sua carreira como ator aos doze anos, mas o gosto pela arte foi tão grande que ele precisou dirigir e roteirizar:

“Porque era a única forma de criar um mundo paralelo, um universo pessoal totalmente meu onde me sentisse à vontade. Só entendo a vida se dirijo, senão não tem sentido.”

Estudou Cinema em Cuba, país fortemente influenciado por uma ideologia à esquerda, apesar disso, o diretor não se declara socialista ou comunista, mas desvia da questão:

“Eu não falo da minha ideologia política, e mais, eu não dou minha opinião pessoal sobre quase nada. Minha forma de pensar se vê através de meus filmes e costuma ser uma visão polêmica ou provocadora, sobretudo contraditória, onde o público pode interpretar as coisas de diferentes formas. Essa é minha forma refletir, me questionar e fazer com que o público questione as coisas. É verdade que a história política me fascina, mais precisamente a Revolução Russa, Chinesa ou Cubana. A União Soviética, Coreia do Norte… os personagens de ditadores, a estética comunista soviética ou norte-coreana e o comportamento humano de qualquer ditador, tudo isso me fascina.”

Eduardo Casanova

Uma curiosidade sobre Casanova, é que o diretor é simplesmente obcecado com a cor rosa, por isso mesmo, seu filme ‘Peles’, assim como todo o material promocional do mesmo, figurino, e até seu instagram pessoal, sejam construídos usando a cor, ele explica a sua obsessão:

“Suponho que seja da tentativa de falar de todos os estigmas que rodeiam a cor rosa. Sempre me perguntei porque uma cor tem que ser monopolizada por um gênero, no caso, o gênero “feminino”. O rosa também se aplica ao ingênuo, ao doce e a momento bonitos. Eu uso o rosa em momento de horror ou dor. Pintar coisas horríveis de cor de rosa funciona para o público como um lubrificante, fazendo com que a mensagem entre melhor. Se a mensagem é estranha e dolorosa, isso pode afastar o público. Tudo depende do que quer mostrar e como.”

Eduardo Casanova

Apesar de ser milimetricamente calculado em termos de estética e moda, Eduardo Casanova se diz despreocupado com essa indústria:

“Eu definitivamente não me interesso por moda, nem roupas, nem tendências. Não para fazer uso dela, mas talvez me interesse estudá-la e justificar alguma tendência. Também não gosto muito dos “fashion films” nem do cinema que é somente estético. A estética descontrolada em uma história acaba por ofuscar o enredo, ou às vezes está presente pela falta de enredo ou de algo interessante para contar. Não gosto de filmes vazios, mas gosto da estética. Eu sempre tento fazer com que a estética seja um personagem a mais na história, com que seja necessária.”

Eduardo Casanova

Desde que estreou em festivais ao redor do mundo, ‘Peles’ tem recebido críticas positivas e sendo aclamado, devido ao teor provocativo, roteiro original e a estética organizada com maestria de Eduardo. Num cenário mundial e político caótico e conservador, onde os maiores líderes mundiais fazem manobras conservadores, tais como Putin na Rússia, Temer no Brasil e Trump nos Estados Unidos, Casanova diz que o cinema tem função social:

“A arte faz muito pelos movimentos sociais e políticos. O cinema e a arte fazem algo muito impressionante, que é mostrar as sociedades como um espelho. O cinema faz você se dar conta do que está acontecendo neste momento. O bom cinema, claro.”

Eduardo Casanova

Cheio de metalinguagem, ‘Peles’ amplia a história de ‘Eat My Shit’, curta-metragem de estreia de Casanova. Em seu longa, o diretor perpassa por temas espinhosos, verdadeiros tabus sociais, como prostituição, pedofilia, e uma gama de fetiches que deixariam até mesmo Marques de Sade chocado. O filme é daqueles que te acompanham pelo resto da vida, mesmo depois do fim da sessão. Criando pontes com a filosofia de intelectuais como a já citada Judith Butler, ou o animalismo queer de Paul B. Preciado, Eduardo Casanova escancara como a humanidade, é na verdade, apenas uma máquina de produção de desumanização – Todos nós merecemos ser amados? Todos nós realmente somos considerados seres humanos? Qual é o lugar do abjeto em nossa sociedade?

“Nós mudamos nossas peles. Peles se operam, se transformam. Aparência física é nada”, diz uma personagem num dos diálogos mais marcantes do filme.

‘Peles’ costura organicamente a trajetória de seus protagonistas expondo que ao final somos todos feitos de pele – medo e pele.

Entrevista traduzida por: Gustavo Andrade

Fotos: ®Reprodução

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