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6 Escritores Brasileiros Contemporâneos Que Estão Hype

Postado por Alisson Prando / 14 December, 2017

Um dos escritores LGBT mais influentes no Brasil escolhe quem são os autores mais importantes do cenário literário brasileiro atual.

Admirados, respeitados e conhecidos no Brasil – alguns no mundo –, os escritores brasileiros, dos primeiros cronistas aos contemporâneos, movimentam a nossa cultura. Por meio de suas histórias, é possível conhecer críticas, e também a cultura e história de nosso país. De Machado de Assis a Clarice Lispector, de Manuel Bandeira à Graciliano Ramos, a literatura brasileira, apesar de “jovem”, é uma das mais potentes do mundo.

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Autor Alexandre Rabelo

Alexandre Rabelo, autor do livro ‘Nicotina Zero’ lançado pela Editora Hoo, obra premiada como Melhor Livro LGBT do ano pelo Prêmio PapoMix da Diversidade, foi convidado pela What Else Mag para contar quem são os escritores mais importantes do panorama contemporâneo brasileiro.

‘Nicotina Zero’, romance de Alexandre Rabelo, versa sobre um DJ que flerta com o diabo pelas noites de São Paulo. Além de escritor, Rabelo também atua como dramaturgo e roteirista.

1. RICARDO LÍSIAS

Egresso do subúrbio paulistano, Ricardo Lísias sabe dialogar bem com a tradição literária mundial, que conhece muito bem. Seus livros brincam ironicamente com os gêneros, fazendo denúncias políticas, sociais e pessoais de forma escandalosa e ao mesmo tempo fantasiosa, absurda. Em ‘Divórcio’, o cara tem a pele arrancada e vive em carne viva quando descobre que a mulher escrevia um diário expressando seu ódio e repulsa pelo esposo. O próprio livro se torna uma ironia da arte contra a atitude da vingança.

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Agora Lísias teve seu novo livro censurado e depois liberado porque era uma autobiografia do político Cunha, como se o próprio a tivesse escrito. Ricardo foi absolvido porque conta com o respeito de grandes nomes que defendem sua posição de que a ficção tem um lugar de autonomia, não querendo competir com a realidade que expressa. Um grande escoteiro de nossas letras.

2. SANTIAGO NAZARIAN

Desde a década de 90, esse menino dos Jardins, de origem armênia, era visto pendurado por ganchos na pele ou enfiado dentro de casacos de pele, nas noites do underground paulistano, como na boate Lôca, dançando sozinho ou rodeado de meninos, ou em cidades gélidas pelo mundo afora, onde tacava o terror e se drogava feliz, muito bem e mal acompanhado, como documenta há anos em seu blog Jardim Bizarro. Seu primeiro livro, ‘Olívio’, já retrata muito bem uma geração que desdenha a ideia de ter uma identidade, sendo a mente do indivíduo enclausurado urbano o maior palco de um teatro de egos e incompreensões fundamentais que chegam no limite do terror.

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Seu segundo livro, ‘A Morte sem nome’, mostra o humano-feminino que morre todo dia e se vê obrigado a existir apenas para tentar uma morte ainda mais eficaz. O terceiro, ‘Feriado de mim mesmo’, é um Beckett meio paulistano, meio nórdico, o drama insone de um indivíduo dividido para sempre entre a nostalgia de uma melancolia de sorriso doce, que ainda salvava, e uma dose de cinismo necessária à sobrevivência. Entre os dois, a ferida aberta, o hedonismo digno dos dândis. Santiago Nazarian agora está na Cia. Das Letras com seu nono livro, ‘Neve Negra’, provando que no Brasil temos cenários dignos dos maiores mestres do horror, cheios de famílias desfeitas desde a raiz, num deserto frio. E o pior de tudo: ele ainda consegue ser engraçadinho.

3. RAPHAEL MONTES

Jovem prodígio, Raphael Montes surpreendeu com o sucesso estrondoso de primeiro livro, ‘Suicidas’, romance policial que escreveu ao longo de anos, desde a adolescência. Até hoje não sai da lista dos mais vendidos. Três livros depois, Montes é elogiado por autores famosos do gênero em grandes centros do mundo, principalmente no difícil mercado norte-americano, onde já tem excelente aceitação. Sempre envolvido diretamente com seus leitores pelas redes sociais, Raphael já tem até seu programa de tevê em que fala sobre os mais diversos tipos de livros, levantando a polêmica sobre o que se considera alta literatura e best-sellers de ocasião.

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De fato, Raphael transita bem, passeando pelo cinema, teatro e tele séries. Seu último romance, ‘Jantar Secreto’, faz muito mais do que nos contar uma história de assassinos doentios e tráfico de carne humana. Monta um panorama terrível da sociedade carioca e brasileira em geral, onde as melhores oportunidades de sobrevivência e ascensão social muitas vezes se apresentam no mercado informal, nas profissões marginais e, sobretudo, no crime organizado. Raphael mostra como todas as classes se envolvem na profissionalização de uma indústria de carne humana, uma das melhoras metáforas para a crise dos últimos anos.

A obra de Raphael Montes é inescapável, como a trama que envolve trágica e comicamente seus personagens dúbios, patéticos e, por isso mesmo, fascinantes. Algumas luzes sobre as sombras dos millenials. Ele nos mostra a todo instante que qualquer um de nós vive dando um passeio pelo wild side.

4. BERNARDO CARVALHO

‘Simpatia pelo demônio’ é o nome de seu último romance, em que somos convidados a acompanhar a queda de um agente pacificador de um grande órgão internacional de direitos humanos, entregue nas mãos de um médico manipulador e submisso, numa relação de paixão e destruição. Muito pior seria se ele explodisse em contato com o homem bomba, naquele hotelzinho barato onde foi pagar um resgate, logo no começo do livro.

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A partir daí é uma descida às sombras, e Bernardo Carvalho nos mostra que no mundo desterritorializado de hoje, não só no Brasil, pessoas do mais alto ao mais baixo escalão agem duplamente sob as asas de uma justiça incompetente e sob as garras do submundo da criminalidade, traição, corrupção, egoísmo e destruição. Ele nos mostra como as relações pessoais e íntimas são um decalque grotesco de relações transnacionais de poder, contaminando tudo. Mundo de homens.

Seus romances são de tirar o fôlego, neles percorremos fragmentos de histórias que se abrem umas de dentro das outras como no mistério das bonequinhas russas, ou no labirinto das 1001 noites, criando uma espiral de agonia e fuga difícil de escapar. Não é à toa que é o escritor que menos falta nas listas de melhores brazucas.

5. DANIEL GALERA

Gaúcho nascido por sina em São Paulo, Galera é nosso representante mais célebre da geração X, e reage com fúria e elegância contra todo o niilismo e cinismo herdado dessa época em que conseguiu sobreviver criando contos obscuros e cortantes para a internet, antes dos blogs e tudo mais. Seus personagens se movem por um rastro cinzento e soturno, em lugares e situações que deveriam significar o paraíso para nós.

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Seu aclamado ‘Barba ensopada de sangue’ exemplifica bem a clássica e quase morta busca por aventura de um lado, e sossego do outro, ambos se contradizendo e enfeitiçando o homem, perdido em fragmentos de um passado promissor e inacabado, como também no recente ‘Meia-noite e vinte’, este último, um retrato fétido de uma geração encurralada pelo cinismo em profissões prestigiadas, mas sem sentido.

Daniel é muito influenciado pela literatura norte-americana, que testemunha um olhar realista e seco, pontuado por uma atitude que repudia ao mesmo tempo em que passa ilesa por um desfile de mortes e pequenos mistérios de luz na natureza selvagem. Galera é uma espécie de Peter Pan dos infernos, não cansa de ser menino, mesmo acumulando leituras fortes, e lança um livro melhor que o outro.

6. JOÃO ANZANELLO CARRASCOZA

Um de nossos autores mais unânimes, Carrasco, como é conhecido por alguns mais íntimos, só assusta quem tem medo de ser sensível. Sua ‘Trilogia do Adeus’ marca o ápice de um universo ficcional perdido entre dois mundos, o urbano e moderno e o interior da terra e do coração, onde o afeto é uma realidade que ainda dói, e onde crianças e mulheres tem um lugar mais agudo. João é por um lado apenas um menino simples e perplexo numa cidadezinha pacífica onde a morte e a deterioração vindas da modernidade assombram casas e famílias.

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Não é difícil comparar o mestre de Cravinhos a Faulkner, embora o que no americano se transforma em rancor, nas casas velhas e em ruínas de um futuro abortado, na pena leve de Carrasco se expresse na doce melancolia do banzo. O menino do interior em seus livros é sutilmente o escravo que deu certo na cidade grande, mas se vê perdido entre dois mundos. ‘Aos 7 e aos 40’ é um marco nesse sentido. Existe em suas obras um ‘inventário do irremediável’, para usar a expressão de Caio C., que também nos lembra a frase de Camille Claudel: “existe sempre alguma coisa de ausente que me atormenta”. A gente não pode deixar de passear nas histórias do mestre João.

Fotos: ®Reprodução

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