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João GG
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Artista João GG Explora Vitrinismo e Cenografia em ‘O Aparato’

Postado por Alisson Prando / 4 April, 2018

Artista visual faz exposição no Paço das Artes do MIS com reflexões sobre cromatismo e plasticidade.

João GG é um dos artistas mais proeminentes da cena de arte contemporânea em São Paulo. Nos últimos anos participou de exposições em diversos museus e galerias: Memorial da América Latina, Zipper Galeria, Oficina Cultural Oswald de Andrade, Roberto Alban Galeria, Instituto Tomie Othtake, Museu Oscar Niemeyer etc. Sobre porque tornar-se artista, ele responde:

“Eu não sou artista de “primeira carreira”. Vim de Porto Alegre para São Paulo com 17 anos para estudar administração de empresas e relações internacionais. Me formei nos dois cursos e trabalhei alguns anos em consultoria de estratégia, principalmente em setores de indústria de base, como petróleo e gás. No meu último ano como consultor, retomei contato com arte por um curso de história da arte oferecido no MIS (por coincidência, o mesmo prédio que abriga agora essa minha primeira individual). Isso me motivou a deixar o que eu fazia, voltar pra universidade, dessa vez para estudar artes visuais. Nessa época também comecei a produzir – inicialmente pintura, depois objetos e esculturas. Eu já tinha tido contato com arte anteriormente – na infância passei um tempo no ateliê da prefeitura em Porto Alegre e tive orientação de uma professora do IA da UFRGS – mas na época não pensava nisso como possibilidade de trabalho.”

João GG

De origem uspiana, o artista visual vem explorando em suas obras objetos estéticos que remetem a vitrinismo, representação de paisagem, ficção e cenografia. Ele conta sobre suas inspirações e o conceito por trás da exposição ‘O Aparato’, que ganha espaço no Paço das Artes no MIS, projeto que dialoga e expõe os artistas mais quentes e inovadores da atualidade:

“Meu processo criativo é bastante intuitivo. Raramente as ideias surgem para mim como projetos, com um conceito prévio definido, circunscrito. Geralmente há uma intuição formal, uma vontade de fazer um ou mais objetos com um determinado aspecto, textura, cor ou forma. A partir disso a ideia vai se refinando, ou mentalmente, por reflexão, ou processualmente, por tentativa e erro. Frequentemente, um trabalho leva a outro, os interesses vão se desenvolvendo naturalmente e incorporando coisas que eu leio, vejo ou pelas quais me interesso durante o processo. No caso do Aparato, tudo começou com o desenvolvimento dessa técnica – esculpir em isopor e aplicar camadas espessas de látex – o que resultou nesses objetos de aparência viscosa, brilhante e colorida. Claramente teve também um interesse por representação de paisagem, já que a maioria dos trabalhos tem um aspecto rochoso, cavernoso, montanhoso. Na sequência, comecei a incorporar lâmpadas de LED, motores e outros materiais reflexivos às esculturas, justamente por perceber que um aspecto marcante delas era brilho e textura, que elas eram bem imagéticas – quase como se existissem num mundo virtual, autoencerrado, como vitrines ou formas digitais, renderizadas. Então me ocorreu juntá-las todas num contexto expositivo com isso em comum, deixar em evidência a característica cenográfica do trabalho. Ou seja, o “conceito” da exposição se amarrou depois da elaboração dos objetos, e não o contrário.”

João GG

A obra de João GG reflete também a análise que ele faz dos movimentos urbanos e políticos. Quando pergunto sobre o que ele pensa do projeto ‘Cidade Linda’ desenvolvido pela prefeitura de João Dória em São Paulo, o artista visual declara:

“Eu não gosto do jargão Cidade Linda, por dois motivos. Primeiro, porque é um projeto ineficaz – é da dinâmica e da história da pixação e do grafite não depender de aprovação governamental para existir – é um tipo de mobilização estética que surge e se multiplica em contextos desfavoráveis e não solicitados, simplesmente vai lá e se impõe. Então me parece um jogo perdido tentar apagar a cidade inteira, sendo que a tendência é que esse tipo de expressão retorne. Isso já aconteceu em vários dos paredões cremes do Dória, nesse período breve de tempo. O segundo motivo é que eu acho o conceito dessa iniciativa populista e um pouco patético – eu acho que São Paulo é uma série de coisas, menos LINDA. São Paulo é produtiva, culturalmente pujante, rica (pra padrões regionais), interessante. Mas é uma cidade feia, por uma série de motivos: é sufocante, carece de vegetação e espaço de circulação, carece de horizonte, tem um excesso de construções de concreto em estado de completa decadência, é extremamente poluída etc. A não ser que você fetichize essas características, São Paulo não é linda, é bem feia. E não é uma medida superficial (literalmente – a troca da cor de algumas áreas) que vai mudar essa realidade. Veja bem, eu nem preciso entrar na questão se eu gosto ou não de grafite pra avaliar o fracasso desse projeto. No que diz respeito ao grafite, eu acho que vale o mesmo critério para qualquer outra forma de arte: eu não posso te dizer a priori se eu gosto ou não de grafite – eu teria que avaliar caso a caso, qual grafite, qual artista urbano. Da mesma forma como eu não gosto de várias exposições de arte contemporânea que vejo em galerias, também não gosto de várias coisas que vejo nas ruas. E de outras, eu gosto. ”

João GG

A exposição propõe uma instalação com referências figurativas de paisagens como cascatas, cânions e montanhas. As obras, essencialmente esculturas, apresentam uma potente visualidade cromática que remete a técnicas expositivas comerciais tais como vitrinismo e cenografia de ambientação de eventos, por conta da presença de aparatos de iluminação e motores de movimento. Estabelecendo um diálogo com a pintura, tais aparatos reforçam o cromatismo intenso dos trabalhos produzidos com materiais “não nobres” – isopor, látex, poliuretano e PVC.

‘O Aparato’ – João GG
Visitação: 27 de março a 6 de maio
Local: Paço das Artes no MIS – Av. Europa 158, São Paulo, SP
Horários: terças a sábados (12h às 21h), domingos e feriados (11h às 20h)
Entrada Gratuita

Fotos: Divulgação

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