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O Magnetismo Queer do Filme Nacional ‘Corpo Elétrico’

Postado por Alisson Prando / 22 December, 2017

‘Corpo Elétrico’ é mais um dos ótimos filmes da recente e crescente safra de cinema LGBTQIA brasileira – como ‘Hoje Eu Quero Voltar Sozinho’, ‘Tatuagem’ e ‘Beira-Mar’ – um respiro em meio à um universo político e artístico conservador.

Primeiro longa-metragem dirigido pelo mineiro Marcelo Caetano, 35 anos, ‘Corpo Elétrico’ tem sido um dos filmes mais aclamados do circuito de cinema nacional em 2017. Pautado sobre a realidade de Elias, um rapaz vindo do interior que trabalha em uma confecção feminina na cidade de São Paulo, Marcelo tenta criar intersecções entre personagens que tem religiões evangélicas, travestistransgêneros e homossexuais – que juntos pensam sua condição enquanto “classe operária”.

Corpo Eletrico

O ator Kelner Macêdo vive o protagonista Elias

Elias é assistente da estilista Diana, mas seu grande sonho é ter uma marca própria em que possa expressar seus desejos. Aos poucos, cria vínculos de amizade com três funcionários da confecção – Carla, Wellington e Fernando – que o incentivam a lutar cada vez mais pelo seu sonho. Nos tempos de descanso, eles exploram a noite da cidade, driblando a solidão e buscando inspiração no caos e na alegria ao redor.

Corpo Eletrico

O filme derruba as convenções do que seria um cinema gay

É essa representação da classe “operária/chão de fábrica” que se ajuda no filme, não em termos de trabalho, mas em termos afetivos, que a crítica especializada tem tratado como ingênua – uma utopia otimista de um diretor que já colaborou com Anna Muylaert (“Mãe Só Há Uma” / “Que Horas Ela Volta?”). No geral, o filme se esforça para mostrar a grande diversidade da classe LGBTQIA brasileira, e reúne os atores Kelner Macedo, Lucas Andrade, Márcia Pantera (icônica drag queen da noite paulistana) e Linn da Quebrada (artista e performer que tem ganhado nome nos últimos tempos por sua música transgressora).

Corpo Eletrico

Márcia Pantera numa das cenas catárticas do filme

Assim como “Que Horas Ela Volta?” de Anna Muylaert ou o cinema do lendário Glauber Rocha, Marcelo Caetano cria tensões em suas cenas quando pensa numa sociedade polarizada por classes altas e baixas: a estilista chefe de Elias, ao sair para sua viagem, lhe sobrecarrega com diversas atividades. Ao final da conversa, dá um abraço de boas festas e pede para ele descansar e tirar um tempo para si (como se ele pudesse ter tempo depois de toda a sobrecarga que ela mesma passou).

Corpo Eletrico

Elias transita entre o feminino e o masculino, entre a liberdade sexual e a austeridade do trabalho

O filme tem influência do poema ‘Eu canto o corpo elétrico’ de Walt Whitman, que celebra as potências e diversidades dos corpos e subjetividades. O roteiro original foi escrito por Caetano em parceria com Gabriel Domingues e Hilton Lacerda.

Corpo Eletrico

O roteiro traz à tona o retrato de uma juventude contemporânea mais interessada em experiências

‘Corpo Elétrico’ é um filme sobre a passagem da juventude para a fase adulta, dos sonhos distantes para a luta por um lugar no mundo que dispensa finais trágicos tão esperados para personagens LGBTQIA no cinema.

Fotos: ®Reprodução

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