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Conheça a Filmografia Completa do Diretor Xavier Dolan

Postado por Alisson Prando / 19 December, 2016

Multifacetado, Xavier Dolan emplacou em menos de uma década uma carreira bem sucedida como ator e diretor, sendo o atual queridinho de Cannes e vencedor do Grande Prêmio do Júri de 2016. Com 6 longas-metragens no currículo, Dolan foge de estereótipos e passamos a limpo sua filmografia e rede de influências.

Dos diretores queer da geração atual, um que tem chamado a atenção da crítica especializada e do público é Xavier Dolan, canadense que aos 27 anos recebeu uma quantidade admirável de aplausos em Cannes. Desde 2009, quando fez sua estreia enquanto diretor, Dolan entrega à sua audiência praticamente um longa-metragem por ano, e felizmente, a qualidade técnica e de roteiro só melhora.

Dolan nasceu em Montreal, Quebec, lugar que serviu de inspiração e cenário para seus filmes. É filho de Geneviève Dolan, uma professora de francês-canadense, e Manuel Tadros, ator e cantor canadense nascido no Egito, com fortes laços na indústria do entretenimento em Quebec. Na infância já despontou como um ator mirim de sucesso.

Nesse post, a What Else Mag disseca a filmografia do jovem diretor e conta seus roteiros e referências de seu cinema até então:

EU MATEI MINHA MÃE

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Em 2009, o ator estreou ‘Eu Matei Minha Mãe’, seu primeiro filme, bancado com o dinheiro ganho quando ele ainda era ator mirim. Nesse longa, Xavier Dolan assina o roteiro, a produção e a direção. O filme estreou no Quinzena do Diretor do programa do Festival de Cannes 2009, onde recebeu uma ovação de oito minutos e ganhou prêmios em Cannes: Prêmio Olhar Jovem e Quinzena dos Diretores. Além da graça de Cannes, recebeu prêmios das Academias de Cinema de Vancouver e Toronto; participou dos Festivais de Cinema de São Paulo e Rotterdan; foi indicado ao César como melhor filme estrangeiro, além de ter sido escolhido como representante oficial do Canadá ao Oscar nessa mesma categoria. O prestígio alcançado pelo filme colocou Dolan no mapa do cinema de arte e abriu as portas para a recepção de suas obras em outros países, o que inclui o Brasil.

Sinopse:

Hubert Minel é um jovem impetuoso de 17 anos que não gosta nem um pouco de sua mãe. Ele despreza suas roupas bregas, o estilo kitsch e as migalhas de pão que sempre ficam no canto de sua boca. Além desses traços, a relação dos dois é pautada pela manipulação e a culpa. Confuso e dividido por uma relação de amor e ódio que o deixa cada dia mais obcecado, o garoto vive uma adolescência que é ao mesmo tempo típica e marginal, marcada por novas experiências artísticas, amizades, sexo e abandono.

Referências:

Em ‘Eu Matei Minha Mãe’, Dolan constrói sua narrativa mergulhado em referências à Freud, ‘O Grito’ de Edward Munch e ‘Mãe e Filho’ de Gustav Klimt, ambas obras de artes plásticas. O filme perpassa a relação problemática de uma mãe solo e seu filho. A mãe do namorado de Hubert é muito afetuosa, apesar de certo sufocamento do filho e de tendências sexuais que fogem do padrão moral. Na casa de Antonin há uma réplica do quadro ‘Mãe e Filho’, de Gustav Klimt, essa obra demonstra uma mãe cuidadosa e de sentimentos elevados. Por sua vez, na casa de Hubert, a pintura principal em seu quarto é ‘O Grito’, de Edward Munch. O viés Freudiano acontece em duas cenas: numa delas Hubert persegue mãe vestida de noiva em uma floresta – totalmente edipiano e em outra, ele aparece deitado em uma banheira em posição fetal, representando algo como o corte do cordão umbilical.

AMORES IMAGINÁRIOS

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Em 2010, Dolan lança seu segundo filme ‘Amores Imaginários’, uma obra tecida em estilo vintage que discute um triângulo amoroso e platônico. Nesse, além de assinar o roteiro, Dolan também atua. A evolução em sua obra é evidente. Nesse filme, Dolan dá luz a uma comédia leve, através de depoimentos que fazem com que o espectador crie ainda mais empatia pelo filme.

Sinopse:

Francis e Marie são amigos inseparáveis. No entanto, suas vidas mudam quando conhecem Nicolas, charmoso rapaz do interior que acaba de se mudar para Montreal. Um encontro se sucede ao outro – seriam eles imaginários? – e os três logo se tornam um grupo inseparável. Mas Francis e Marie, ambos apaixonados por Nicolas, desenvolvem fantasias obsessivas em torno de seu objeto de desejo comum. À medida que atravessam as típicas fases da paixão, embarcam numa verdadeira disputa pela atenção do rapaz, comprometendo sua antiga amizade.

Referências:

Em ‘Amores Imaginários’, Xavier Dolan compõe suas personagens bebendo nas fontes do cinema de ouro de Hollywood. O look de Francis é composto como o de James Dean, ator que foi símbolo de rebeldia e sexualidade, enquanto Marie tem o visual de Audrey Hepburn, importante atriz que foi ícone de beleza e moda. Outra referência é ao filme ‘Malena’ de Giuseppe Tornatore: O caminhar de Marie em câmera lenta e o desenho do vestido dialogam com a cena mais famosa do longa-metragem italiano, o qual também contava uma história de um amor que aconteceu apenas no pensamento do protagonista. Outra referência possível do filme é com a obra ‘Prelude de Parsifal’, de Richard Wagner – uma encenação da busca do Rei Arthur pelo Santo Graal – o diretor propõe novamente dialogar com algo inalcançável, que faz parte do ideal e nunca se concretiza, como o amor dos dois jovens por Nicolas.

LAURENCE ANYWAYS

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Lançado em 2012, ‘Laurence Anyways’ é considerado um marco do cinema queer. É a afirmação de Xavier Dolan enquanto cineasta, dono de uma estética própria e roteiros originais. ‘Laurence Anyways’ toca em temas tabu como identidade de gênero e transgeneridade.

Sinopse:

A história conta a vida de Laurence, uma mulher transexual que em seu aniversário de 30 anos revela à sua namorada, Fred, seu desejo de fazer a transição. Mesmo abalada com a revelação, ela resolve permanecer ao lado da pessoa que ama, tendo que lidar com preconceitos de familiares, amigos e colegas de trabalho. Contra tudo, elas tentarão provar que o amor pode superar todas as situações.

Referências:

É o filme onde Dolan mais homenageia Almodóvar, num excesso de cores e informações na tela. Novamente, o cineasta bebe nas fontes das artes plásticas para compor seus personagens: atenção para o momento em que Laurence briga em um bar e fica com o rosto machucado. Enquanto ela caminha ensanguentado pelas ruas da cidade, são mostradas faces da pintura grotesca de Hieronymus Bosch. As cabeças grotescas são colocadas na cena como em um fluxo de consciência do personagem, o que indica a visão que, naquele momento, ele tem de si mesmo: um homem grotesco, um monstro; ou mesmo um Cristo carregando sua cruz, que é o próprio corpo (concepção que vai ao encontro do título da pintura). A casa de Laurence é decorada com inúmeras réplicas de quadros famosos em que as mulheres são o centro da pintura, entre elas se destacam ‘Mulheres no Jardim’, de Claude Monet, e ‘Mona Lisa’, de Leonardo da Vinci. As duas pinturas aludem ao belo; no entanto, Dolan instaura um diálogo mais fecundo com a obra de Vinci. A obra fica na cabeceira da cama de Laurence, quando ela decide fazer a grande mudança de sua vida, juntos, Laurence e Fred, escrevem ‘Liberté’ na pintura.

TOM NA FAZENDA

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É o único filme de Xavier Dolan não lançado comercialmente no Brasil. É também o seu filme mais maduro e soturno, onde ele abre mão de seus fetiches e estética POP e dá luz a uma obra homoerótica dura, com personagens sombrios e angustiados.

Sinopse:

A história de Tom, um jovem que está de luto pela morte de seu parceiro. Quando conhece a família do falecido, Tom descobre que a mãe não sabia da situação do filho nem muito menos da relação que mantinha com Tom.

Referências:

É o primeiro filme de Xavier Dolan que não parte de um texto próprio, é uma adaptação da peça de mesmo nome de Michel Marc Bouchard. Em ‘Tom na Fazenda’, Xavier Dolan faz referências à Alfred Hitchcock, um dos maiores nomes do suspense no cinema. É possível citar a cena da ameaça no chuveiro, como em ‘Psycho’ e o céu constantemente cinza, opressor e claustrofóbico de ‘The Birds’. Várias cenas são extremamente dramáticas e tratam o desejo através do perigo, como a perseguição no milharal, a morte do bezerro e o tango no celeiro.

MOMMY

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Foi o primeiro filme do jovem cineasta a fazer sucesso de bilheteria – em 2014, rendeu 3,5 milhões de dólares, quando mais de um milhão de pessoas foram ao cinema para assistir a obra. Ganhou o Prêmio do Júri em Cannes, dividindo com ‘Goodbye to Language’ de Jean-Luc Godard. Em ‘Mommy’, Dolan cuidou da direção, produção, roteiro e edição.

Sinopse:

Uma viúva encontra-se sobrecarregada com a custódia em tempo integral de seu explosivo filho de 15 anos de idade que sofre de déficit de atenção. Enquanto tentam sobreviver, a nova garota do outro lado da rua, Kyla, benevolentemente oferece o apoio necessário. Juntos, eles descobrem um novo sentido de equilíbrio e a esperança pode ser recuperada.

Referências:

Nesse filme, Xavier Dolan pensa sobre como doenças mentais podem afetar as vidas domésticas, a inspiração vem de si mesmo – o diretor-ator, assim como seus filmes e personagens, declara-se constantemente raivoso e histérico. A criação do filme aconteceu depois que Dolan dirigiu o videoclipe ‘College Boy’ de Indochine. Inspirado por ‘Experience’, música de Ludovico Einaudi, ele escreveu uma cena onde uma mãe fantasia com um futuro para seu filho que nunca viria acontecer de fato.

É APENAS O FIM DO MUNDO

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Adaptação de uma peça de Jean-Luc Lagarce, ‘É Apenas o Fim do Mundo’ tem arrancado elogios da crítica especializada devido a sua direção teatral – Dolan escolhe por filmar closes experimentais dos rostos de seus personagens, fazendo com que o espectador fique cada vez mais tenso conforme o filme se desenvolve – cada piscar de olhos, cada lágrima, cada expressão interessa. Foi escolhido na pré-seleção de filmes canadenses para concorrer ao Oscar por Melhor Filme Estrangeiro.

Sinopse:

Longe de casa há doze anos, o escritor Louis (Gaspard Ulliel) vai ao encontro da mãe, da irmã, do irmão e da cunhada para informá-los que irá morrer em breve. No entanto, o roteiro da curta reunião, idealizado por Louis, sairá de seu controle assim que as mágoas, as memórias, as brigas e as lágrimas do passado começarem a ressurgir entre a família.

Diante dessa filmografia, é possível afirmar que Dolan é um dos nomes mais jovens e mais importantes daquilo que se chama de Novo Cinema Queer, onde os cineastas apontam problemáticas da comunidade LGBTQIA nas grandes telas.

Xavier Dolan esforça-se para converter diversas artes dentro de seus filmes, seja através da moda, da trilha sonora ou das artes plásticas, seus filmes são deslumbrantes aos olhos e ouvidos, causando emoções que muitas vezes nem sabíamos que tínhamos. O diretor de 27 anos é com certeza um ícone de empoderamento LGBT e revolução na história do cinema mundial.

Você pode ouvir as músicas dos filmes de Xavier Dolan nessa playlist do Spotify:

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