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David LaChapelle
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O Glamour e a Cultura de Consumo na Estética de David LaChapelle

Postado por Alisson Prando / 26 March, 2018

Parte pintor renascentista, parte kitsch de Jeff Koons, LaChapelle dedicou sua vida a produzir obras que são impressionantes, espirituosas, irônicas e inteligentes.

Na década de 90, David LaChapelle foi o divisor de águas da fotografia. Sua estética uber colorida, saturada e seu universo exagerado tomaram conta de todas as plataformas de arte. Não seria exagero dizer que David LaChapelle fotografou as celebridades e artistas mais importantes do século 20: ele foi responsável por fazer com que Michael Jackson posasse como um anjo, Kanye West como Jesus, fez Madonna posar como uma neo-diva-hindu, fotografou Naomi Campbell como a Vênus de Botticelli e colocou Aguilera em meio a uma orgia suarenta no videoclipe de “Dirty”. Todo mundo valeu o seu talento – de Tupac Shakur e Leonardo DiCaprio, até Hilary Clinton. LaChapelle é tão importante para a fotografia quanto Michelangelo é para as artes plásticas ou Fellini é para o cinema.

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Série de fotografias “American Jesus” que David LaChapelle fez de Michael Jackson em 2007

LaChapelle declara-se um fotógrafo capaz de ser inspirado por tudo, da história da arte à cultura de rua. Entre seus livros publicados estão LaChapelle Land (1966), Hôtel LaChapelle (1999), LaChapelle, Artits & Prostitutes (2006) e, no mesmo ano, o gigantesco Heaven to Hell (2006).

Dentro da publicidade, o currículo de LaChapelle estende-se a marcas como L’Oréal, Iceberg, MTV, Ecko, Diesel Jeans, Sirius, Ford, Sky Vodka, etc. O seu trabalho fotográfico já foi capa de todas as principais publicações de moda e não só, como a Italian Vogue, Vanity Fair, Rolling Stone, i-D, Vice, Interview e a The Face, entre muitas outras.

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Britney Spears foi clicada por David LaChapelle para sua edição da Rolling Stone em 1999

Agora LaChapelle tem 53 anos, e depois de fazer história na cultura POP, se diz preparado para se aposentar. Durante sua juventude, ele fazia parte do Studio 54. Foi Andy Warhol que lhe deu seu primeiro trabalho, ainda nos anos 80, na revista Interview. Não tinha como dar errado quando se tem o toque e aprovação do Midas da POP art. Depois fazia anúncios, capas de revistas e fotografou as figuras mais icônicas dos Estados Unidos – Pamella Anderson, Mariah Carey, Moby e Elton John.

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Pamella Anderson na campanha de calçado da designer Amelie Pichard em 2016 por David LaChapelle

Em 2006, ele quase largou as câmeras para sempre. Decidiu ir para o Hawai e morar numa fazenda cercado por galinhas, frutas e vegetais. Ele comprou algumas terras – uma ex-colônia nudista em uma remota floresta tropical de Maui – e levou seis meses para transformar o local, quando uma galeria alemã ligou para perguntar sobre a possibilidade de exibição de novos trabalhos.

“Fotografar para marcas, revistas e celebridades é paradoxal. Eu amo glamour, moda e beleza – isso tem estado com as civilizações para sempre, mas eu precisava me afastar da propaganda de falsa felicidade. Quando parei tudo, nunca quis filmar outra estrela pop enquanto vivesse, fui torturado por eles”.

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Lady Gaga inspirou David LaChapelle a voltar a fotografar celebridades para revistas, como para Roling Stone em 2009

David Lachapelle só voltou a fotografar novamente depois de ter se encantado com um show que viu de Lady Gaga numa pequena boate gay em West Hollywood quando ela ainda estava começando. Depois desse show, Lady Gaga teria sua foto clicada por LaChapelle para sua primeira capa da Rolling Stone, quando ela entrou para o imaginário coletivo de vez.

“Eu não sou uma daquelas pessoas que vê o mal em todo mundo, mas eu definitivamente tomo meu tempo com as pessoas e tento conhecer todas elas. No estúdio que eu tenho em Los Angeles, nós temos muitos estagiários, e eles têm sido inestimáveis em montar esses livros porque eu comecei a ver [o trabalho] através dos olhos deles. David LaChapelle não usa Instagram ou se preocupa com redes sociais, porque é “apenas uma outra maneira de estar ocupado sem realmente fazer nada”. Ele ainda complementa: “Sou como o Moisés da fotografia”.

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Lady Gaga e Kanye West juntos em foto promocional de David LaChapelle para a extinta Fame Kills Tour de 2009

Quando ele se mudou para Mauí, escreveram sobre ele: “O fotografo que destruiur nossa cultura agora vai viver na Selva”. Isso porque David LaChapelle foi um dos primeiros grandes fotografos a fazer um shoot representativo de Paris Hilton. “Eu realmente fiz com que a cultura decaísse tanto assim?”

“Paris Hilton tinha um carisma naquela época que você não conseguia tirar os olhos dela”, explica ele. “Ela ria e ria e era efervescente e ocupava um quarto inteiro com sua energia. Ela estava desesperada para estar em minhas fotos e um dia nós precisávamos dela para uma sessão de fotos de jeans. ”A modelo na época não podia se encaixar no tamanho da amostra fornecida e Paris teve uma chance. “Ela veio, ela não estava em casa há três dias, mas ela parecia incrível. Você nunca viu aquela garota desarrumada. ”Algumas pessoas, ele diz, realmente tem star quality.

“Se você realmente quer chocar as pessoas no mundo da arte, fale sobre Jesus ou Deus”, provoca LaChapelle.

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Paris Hilton no início da fama numa série de portratos para o livro “LaChapelle: Heaven to Hell

David LaChapelle não acredita que a moda ou a fotografia possam mudar o mundo, mas ele também não se importa em colocar seu talento a serviço da política. Uma de suas campanhas mais famosas: em 1995, ele fotografou dois marinheiros se beijando. A ideia ecoou na mente de Nicola Formichetti, o designer ítalo-japonês que vestiu Lady Gaga de carne no VMA. Nesse ano, como uma resposta estética ao Governo Trump, marcado por políticas heterocêntricas e xenofóbicas, Nicola deu a ideia de refazer a campanha com um beijo gay entre um norte-americano e um mulçumano:

“Acredito que é meu dever celebrar diversidade tanto quanto possível para educar as pessoas. Se nós temos uma voz, precisamos usa-la alta e de maneira positiva”, disse Formichetti sobre a foto.

“Na Diesel, temos uma forte posição contra o ódio e, mais do que nunca, queremos que o mundo saiba disso, queremos usar nossa voz para o bem, o amor e a união, cruciais pra criar uma sociedade na qual todos queremos viver e um futuro que todos merecemos”, continuou o stylist.

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Diesel e David LaChapelle oferecem uma alegre resistência com a flamboyant campanha “Make Love Not Walls” de 2017

Como uma espécie de fechamento de ciclo, David LaChapelle decidiu compilar um livro com alguns de seus últimos trabalhos. Mas depois que os estagiários de seu estúdio de L.A. começaram a pesquisar imagens que ele tinha clicado em 1980, David decidiu por incluir algumas dessas fotografias também.

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Retrato de Dwayne “The Rock” Johnson para a revista Vanity Fair em 2002 por David LaChapelle

O resultado são dois novos volumes de coffle table book, ambos publicados pela Taschen, cheios de quase 400 imagens, a maioria nunca antes publicadas. ‘Lost + Found’, que tem fotos de “Earth Laughs In Flowers”, bem como fotos de David Bowie, Katy Perry, Rihanna e os Kardashians, entre outros, pretende representar o mundo em que vivemos. ‘Good News’ tem fotos de Tupac Shakur, Michael Jackson e Elizabeth Taylor, bem como muitas imagens com iconografia religiosa, pretendem ilustrar aonde podemos ir. Cada antologia é sequenciada tematicamente para criar narrativas, e ele diz que será sua última coleção publicada.

Fotos: ®Reprodução

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