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Hick Duarte
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Explorando Juventude e Vanguarda Pelas Lentes de Hick Duarte

Postado por Alisson Prando / 2 May, 2018

Fotografo e videomaker, Hick Duarte já chamou atenção de grandes marcas como Marina Abramovic Institute, Heineken e Puma, agora ele faz direção de videoclipes de estrelas POP.

“Estou numa jornada de autoconhecimento”, é assim que se define Hick Duarte, fotografo e diretor que vem sendo considerado um dos expoentes dessas artes no Brasil. Recentemente, Hick foi responsável pela direção de ‘Então Vai’, videoclipe da drag queen Pabllo Vittar onde ela beija o DJ e produtor Diplo.

Hick Duarte

Projeto “R.I.P. Relax Is Priority” de Hick Duarte em colaboração com as marcas Cotton Project e Puma

Antes de figurar entre os diretores dos vídeos mais quentes do YouTube, Hick começou bem cedo a fotografar ainda em Uberlândia:

“Eu estudei jornalismo lá em Uberlândia, me formei em comunicação social e esse foi o meu primeiro contato com fotografia. Com 17 anos, saí de Uberlândia, porque era uma cidade de médio porte, e a noite “alternativa” representava um campo muito pequeno. Quando eu fazia jornalismo, minha ideia inicial era trabalhar com jornalismo cultural, então eu queria viajar o pais, escrever resenha de show, festival, bandas novas… Comecei a fazer isso em Uberlândia – numa proporção municipal – até colaborei pra MTV uma época, só que uma coisa que me incomodava era que eu pensava no texto como uma peça completa e a foto nunca era legal. Eu olhava a foto do show para ilustrar a resenha e pensava: “que foto ruim, é uma foto fria, parece que o cara foi lá, fotografou a primeira música e foi embora”. É uma foto que cobre o momento, mas que não necessariamente passa uma mensagem. Então eu decidi começar a fotografar minhas próprias fotos para ilustrar minhas resenhas. E foi assim que eu comecei a fotografar… Comecei a fotografar shows, de shows foi pras festas, de festas foi pra moda, e assim as coisas foram acontecendo.”

Hick Duarte

Imagens do projeto “Rente”, onde o fotógrafo expõe o universo pessoal e particular de jovens meninos

Depois que se mudou para São Paulo, o mundo abraçou a arte de Hick Duarte: em 2015, ele fez a exposição ‘Youth’, onde clicava a juventude contemporânea sob seu olhar. ‘Youth’ tinha 15 fotos feitas com câmeras analógicas em 35mm. Em comum, os fotografados tinham senso de estilo, moda e música. Depois, Hick Duarte encabeçou a exposição ‘Rente’, também feita em São Paulo, com a mesma temática, mas dessa vez feita em tom de projeto multimídia. ‘Rente’ contou com curadoria e expografia assinadas por Augusto Mariotti e Gabriel Finotti, e curta feito em São Paulo, com trilha assinada por Marcelo Gerab:

“A juventude é uma fase muito especial. Tem uma coisa no meu trabalho que foi muito importante, que foi o fato de eu não ter estudado fotografia. Foi cru e corajoso. Isso eu acho que é uma característica, uma peculiaridade da fase jovem, que é demais precioso, tudo é novo, você não sabe ainda onde está pisando… Isso é o que mais me cativa nessa fase da vida. Estar sempre batendo de frente com alguma coisa.”

Hick Duarte

A juventude aparece como tema recorrente no trabalho do fotógrafo Hick Duarte

A cultura POP tem grandes fotógrafos que projetam imagens icônicas para artistas, desde Lachapelle, Steven Klein, Meisel, Mario Testino e muitos outros. Todos esses gigantes têm processos criativos diferentes e estéticas distintas também, e com Hick Duarte não é diferente:

“Eu penso muito em como esses artistas se projetaram no mercado de moda, mas eles têm uma missão muito maior: volta para aquela ideia de moda como um instrumento, como uma ferramenta, e não como um fim. Até você chegar nesse patamar profissional, vai fazer muita coisa que é a moda mais comercial, vai cair numa repetição…, mas quando você transcende isso, é um grande fotografo, é um cara que usa o mercado, usa essas linguagens como um instrumento para processar as próprias ideias.”

Hick Duarte

 O fotógrafo registra seus personagens meio a elementos e situações reais e locais onde eles vivem

Sobre suas inspirações e processos de criação, Hick diz:

“Eu gosto muito da Viviane Sassen, uma fotógrafa holandesa muito talentosa que fotografa corpos negros de um jeito muito bonito, muito forte. Eu gosto muito do David Lynch, diretor de cinema, a forma que ele provoca várias questões, os filmes, além da série de ‘Twin Peaks’. Quando eu vou fotografar ou dirigir em trabalhos comerciais, eu sempre peço que a pessoa me mande referências do que ela procura, não em fotografias, mas um disco, uma paisagem, uma carta, ou qualquer coisa assim. Porque quando você recebe um moodboard só com fotografias já pré-concebidas, eu acho que é muito fácil você cair nessa armadilha de fazer uma coisa que já foi feita. Então eu sempre tento estabelecer isso, é algo que eu vou conquistando com cada cliente.”

Hick Duarte

Na exposição “Youth”, Hick Duarte retrata uma nova tribo urbana com um olhar sensível sobre a moda jovem em São Paulo

O trabalho de Hick Duarte já foi apresentado em veículos como i-D, Dazed, Hypebeast, CNN Style e Vogue Brasil, e entre seus clientes estão adidas, PUMA, Heineken, C&A, M.A.C Cosmetics e Marina Abramovic Institute:

“Eu tenho na minha cabeça uma visão bem clara da imagem que eu quero construir de moda, que é contar uma história com a moda como background. Por mais que seja uma foto de moda, eu tento colocar a informação de moda, a roupa, em segundo plano e, em primeiro plano colocar alguma história que seja um pouco mais humana, que fale sobre pessoas, sobre alguma cena, comportamento, emoção… então tudo que eu fiz de moda, hoje, eu acho que talvez se ligue nessa filosofia. Eu acho que estou num caminho onde as pessoas estão entendendo isso, e estão me procurando justamente por isso. Existe um mercado bastante diverso, então tenho vários clientes com posicionamentos diferentes…. Às vezes, faço algumas coisas comerciais mesmo, mas a maioria dos trabalhos que tenho me envolvido, eu tenho oportunidade de contar uma história.”

Hick Duarte

Hick Duarte foi convidado para clicar peças da marca Rider em um mood minimalista

No panorama visual atual, muitas marcas têm se envolvido fortemente com militância política, seja contratando modelos com estética dissidente para suas campanhas ou se posicionando a favor de direitos LGBTQIA+, o que cria um diálogo inevitável sobre se essas marcas estão apenas cooptando esse público ou se elas, de fato, querem criar algum engajamento em relação as minorias identitárias, Hick palpita:

“Associações entre marcas e causas precisam ser construídas com muita responsabilidade e eu acho que o mercado publicitário no Brasil ainda está entendendo como lidar com isso. Procuro me manter sempre atento pra não me envolver em campanhas que beiram o oportunismo ou em projetos superficiais, que abordem essas questões com o mínimo de cuidado e profundidade que elas demandam”

Hick Duarte

No projeto “Chavosos: o ritual do estilo”, o fotógrafo documenta a importância de uma barbearia nas favelas brasileiras

Num mundo de informações a todo tempo, as imagens importam, e justamente por isso, os fotógrafos tem o dever de criarem novas gramáticas e regimes visuais, seja incluindo pessoas que antes não estavam representadas nas telas ou criando imagens que alteram o status quo, felizmente, Hick Duarte, é um operário das imagens no que se refere a isso:

“A fotografia importa porque ela gera uma reação. Quando eu digo uma reação, ela pode ser emocional, subversiva, de desconforto… A fotografia quando gera uma reação faz as pessoas pensarem. As pessoas olham as imagens e essas imagens vão interferir de alguma maneira. Seria como uma caixinha de lembranças visuais que, quando você vai escolher uma roupa, você acessa essas memorias visuais, você vai pensar num lugar para sair, você talvez acesse essas memorias visuais… Para mim, essas reações – sentimentais, emocionais – da fotografia são o que realmente importam.”

Hick Duarte dirigiu o videoclipe Então Vai, de Pabllo Vittar, do álbum Vai Passar Mal ( 2017)

Colaborou: Thais Carrijo

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