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Gianfranco Briceño
Cult +

Explorando a masculinidade na fotografia de Gianfranco Briceño

Postado por Alisson Prando / 17 April, 2017

Thiago Pethit, techno, rock, nudez masculina, juventude libertária e hipersexualizada de São Paulo são os elementos que compõem a obra de Gianfranco Briceño. Conheça o trabalho desse fotógrafo que está inovando no mercado editorial brasileiro.

Se for para fazer uma introdução ao artista, podemos afirmar que o fotografo Gianfranco Briceño é peruano, mas vive no Brasil e foi em terras tupiniquins que fez sua arte.

“Decidi ser fotografo logo que comecei o curso de Publicidade e Propaganda na PUC-Minas. Eu era sempre interessado pela construção da imagem como um todo. Na época, me candidatei para uma vaga no Laboratório de Fotografia da Faculdade, entrei e me apaixonei pelo processo todo da criação de uma foto: desde fotografar, relevar o filme, fazer a ampliação no papel, etc. Comecei a fotografar muito. Uma coisa levou a outra e depois disso nunca mais larguei a câmera.”

Gianfranco Briceño

Um dos nomes mais talentosos da cena de fotografia atual, é costumeiro que seu trabalho contenha imagens homoeróticas em preto e branco. Um de seus projetos mais famosos foi o Snaps Fanzine, onde o artista retratava meninos que poderiam ser seus vizinhos, nus, em situações do cotidiano. Agora Gianfranco dedica-se ao KCT Zine, projeto realizado via financiamento coletivo, que mostra rapazes em situações repletas de sexo, suor, fetiches e expressão sexual e corporal por lugares de São Paulo:

“Para meu mais recente projeto, o KCT Zine, eu não tinha nada definido. Queria fazer uma continuação do Snaps Fanzine, porém focado em todo o mundo gay ao meu redor, foi indo nas festas de techno que rolam em galpões desativados de São Paulo que tive a visão dessa juventude mais libertária e pulsante que eu queria me dedicar. Ao mesmo tempo, nessa época ouvi dois discos sem parar, um velho, porém clássico e um novo, brasileiro: O ‘Erotica’ (1992) de Madonna e o ‘Boca’ (2017) do NoPorn, distintos entre eles, mas focados nos mesmos temas: relacionamentos, amor, sexo, liberdade, desejos. Condensei todo esse clima de juventude livre, raves e tesão e foi assim que nasceu o KCT.”

Gianfranco Briceño

Sobre o mercado de imagens homoeróticas brasileiras que tiveram revistas como G Magazine e JUNIOR (ambas saíram de circulação depois do advento da internet), Gianfranco declara-se desbravador e ao mesmo tempo fetichiza o papel, a tinta, a imagem impressa:

“com a internet fica muito mais fácil você ver um cara pelado e sem pagar nada por isso. Eu sou um incentivador da publicação impressa porque eu gosto desse meio, de folhar uma revista, de sentir o cheiro da tinta, de ver as imagens impressas no papel, isso tudo talvez tenha a ver porque eu comecei fotografando com filme e via as imagens ampliadas no papel em vez da tela do computador. Vivemos numa geração onde as pessoas estão acostumadas a ver qualquer trabalho artístico pela tela, e isso é meio triste e inevitável, muita gente fica pedindo versões digitais dos meus projetos por exemplo, e eu falo: não, eu não pensei nesse trabalho para ser visto pelo computador, ele é físico, palpável, chega na sua casa pelo correio, é para você folheá-lo com calma tomando um café ou bebendo uma cerveja, ou fumando um batendo uma punheta. No geral acho que a produção de publicações de nudez se esgotou na busca de representar uma mesma coisa – no caso o corpo nu apenas. Foi por isso que decidi seguir em frente, buscando uma nova fronteira para desbravar, que eu sentia no próprio processo de fotografar meus modelos, comecei a perceber que precisava ir além do corpo – existem hábitos, desejos, modos de vida. Enxerguei uma oportunidade de me relacionar com eles, entrar na vida deles de uma forma mais íntima, trazer isso para o foco. O KCT Zine é sobre sexo sim, e isso é aumentar o volume, mas é também sobre trazer para a frente quem são esses meninos, como eles se expressam de uma forma livre, sem pudores, sem censura. Isso para mim é muito mais interessante do que simplesmente reduzi-los a corpos.”

Gianfranco Briceño

O fotografo é frequentador assíduo de festas eletrônicas de São Paulo. Atualmente, tem como uma de suas principais inspirações o grupo Teto Preto, live jam eletrônico-orgânica formado por Lúcio nas drummachines, Zopelar nos sintetizadores, Carneosso nos vocais, e Bica no trombone e percussões. Conhecidos pela festa Mamba Negra, eles incendeiam as pistas da capital com o hit ‘Gasolina’.

“Ultimamente tenho ouvido muito techno – o que tem me inspirado no meu atual projeto. Sempre que possível vou aos lives de Teto Preto em festas”.

Gianfranco Briceño

Uma parceria mais que consolidada de Gianfranco Briceño é com o muso e cantor Thiago Pethit. O fotografo foi o responsável por imprimir imagens de várias eras do artista, desde ‘Estrela Decadente’ até a fase mais recente ‘Rock’n’Roll Sugar Darling’, onde Thiago encarna uma persona inspirada em Jim Morrison, Andy Warhol e Iggy Pop:

“Conheci o Pethit em 2010, quando ele foi fazer um show em Belo Horizonte e eu ainda morava lá. Eu estava encarregado de fotografá-lo, e digamos que foi amor e amizade à primeira vista. Nos tornamos muito amigos e nos encontramos em uma parceria de fotografo/muso meio difícil de ser desgrudada. A gente se dá muito bem trabalhando juntos, porque ele sempre traz desafios novos para as coisas que quer fazer e eu adoro um desafio.”

Gianfranco Briceño

Mesmo com uma parceria de sucesso, Gianfranco diz não ser seduzido por celebridades e artistas:

“Confesso que não tenho essa fissura de fotografar artistas, eu gosto muito de registrar gente comum, que eu vejo nas ruas ou nas festas que vou. Fico muito mais na vontade de clicar um menino que me chamou a atenção na rua do que alguém famoso.”

Gianfranco Briceño

Quando perguntado sobre o que ele faria se não fosse fotografo, ele é categórico:

“Meus amigos próximos sabem – eu amo cozinhar. Sou apaixonado por uma boa alimentação. Estou sempre fazendo feira, comprando temperos, fazendo algum prato diferente. Se eu não fosse fotógrafo com certeza seria chef de cozinha, ou trabalharia com algo do tipo”.

Fotos: ®Reprodução

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