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A Juventude Perdida no Cinema 2019: Boy Erased e Beautiful Boy

Postado por Alisson Prando / 1 February, 2019

“Beautiful Boy” e “Boy Erased” – dois lançamentos do cinema que abordam vivências turbulentas na adolescência.

Os lançamentos do cinema 2019 trazem filmes importantes sobre a formação da identidade durante a adolescência, e suas turbulências quando se trata do convívio social e familiar. Neste mês de fevereiro dois desses lançamentos chegam as salas nacionais e a What Else Mag preparou um review especial sobre a juventude perdida em Beautiful Boy (Querido Menino) e Boy Erased (Garoto Apagado). Filmes baseados em livros best sellers que prometem gerar discussões acaloradas envolvendo temas do universo jovem como sexualidade e drogas. Partiu, pipoca!

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CINEMA 2019: BEAUTIFUL BOY

Seis anos após ser indicado ao Oscar de ‘Melhor Filme Estrangeiro’ com “Alabama Monroe”, o diretor e roteirista Felix Van Groeningen faz sua estreia no cinema americano com um elenco de peso: “Beautiful Boy”, aqui no Brasil com o nome de Querido Menino, seu mais novo filme é estrelado por Steve Carell, Maura Tierney, Amy RyanJack Dylan Grazer e a revelação de 2018 e ícone de estilo Timothée Chalamet.

“Beautiful Boy”, seu mais novo longa-metragem, conta a história de David Sheff, interpretado por Steve Carell, conceituado jornalista e escritor que vive com a segunda esposa e os filhos. O filho mais velho, Nic Sheff, papel do cristal do cinema hollywoodiano, Timothée Chalamet, é um viciado em metanfetamina, o que acaba por abalar completamente a rotina da família e de sua casa. David tenta entender o que acontece com o filho, que teve uma infância de carinho e suporte, ao mesmo tempo em que estuda a droga e sua dependência. Nic, por sua vez, passa por diversos ciclos da vida de um dependente químico, lutando para se recuperar, mas volta e meia se entregando ao vício.

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Essa não é a primeira vez que as drogas ganham as telas da sétima arte, são vários filmes que tratam desse tema de maneira impactante: “Requiem Para um Sonho” de Darren Aronosfky, “Despedida em Las Vegas” de Mike Figgis“Geração Prozac” de Erik Skjoldbjærg e “Diário de Um Adolescente” de Scott Kalvert, são belos exemplos disso. No Brasil, o filme “Bicho de Sete Cabeças” estrelado por Rodrigo Santoro e dirigido por Lais Bodansky mostra em tom de denúncia ao sistema manicomial do país.

Em um Estados Unidos hoje devastado pelo vício em metanfetamina, sem sistema universal de saúde, “Beautiful Boy” toca fundo os corações de inúmeras famílias norte-americanas na mesma situação. Sem oferecer soluções milagrosas, e tampouco sem demonizar o usuário de drogas, “Beautiful Boy” oferece um drama que consegue ser profundo sem necessariamente tornar-se exagerado. Para viver seu papel no filme, Chalamet perdeu 15 kg, orientado pelo diretor, que declara:

“Eu queria que ele fizesse isso. Eu pensei que era importante. Ele tinha suas reservas, mas foi em frente. Havia tantos detalhes no livro sobre como Nic teve altos e baixos dramáticos – quando ele estava olhando e se sentindo bem em contraste com quando estava drogado. Durante a preparação, achei que o peso seria importante e, ao mesmo tempo, descobrir como poderíamos ir com maquiagem e cabelo. É uma linha tênue porque você tem que fazer aquilo crível dentro do contexto do filme.

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Você quer que o público esteja ciente da mudança na aparência de Nic, mas você também não quer chegar ao ponto em que ele se torne muito focado nisso. Você tem que encontrar um equilíbrio para torná-lo realista. Embora tenha sido uma provação para ele, como Timmy estava perdendo o peso, vi que estava realmente ajudando-o a entrar no personagem. Nós só iríamos perder 15 quilos, mas depois ele perdeu mais. Todo mundo dizia: “Tudo bem, você não precisa disso”, mas ele estava comprometido em fazer essa transformação.”

O filme é baseado em “Tweak: Growing Up on Methamphetamines”, escrito por Nic Sheff que detalha meticulosamente o vício em metanfetamina – rapidamente, o livro tornou-se um best-seller, aparecendo na lista do New York Times. O privilégio de branquitude de Nic faz com que ele tenha acesso a clínicas de reabilitação e também faz com que ele seja tratado com o estatuto de humanidade – algo que a maioria dos usuários em metanfetamina não tem acesso. Com esse privilégio, Nic pôde contribuir como autor para séries como “The Killing” e “13 Reasons Why”.

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Talvez o que o espectador de “Beautiful Boy” possa se perguntar depois de ter visto o filme é: quantos adictos tem as mesmas oportunidades de Nic? Quantos assinam contratos milionarios com estúdios e editoras de livros? Nesse sentido, algumas histórias permanecem sem ser contadas, o que faz com que sempre tenhamos um acesso a experiências higienizadas de adicção:

“Nós gostamos de pensar que temos controle sobre nossas vidas e, em algum nível, nós temos. Mas a vida é mais estranha e muito maior do que os nossos planos, e temos que estar bem com isso também. Isso é o que este filme é sobre, eu acho. Nós temos que aceitar que a vida não é preta e branca. É cinza e temos que abraçá-lo para amar e apreciar as coisas boas que acontecem conosco.” declara o diretor Felix Van Groeningen sobre seu sexto filme, “Beautiful Boy”.

 

CINEMA 2019: BOY ERASED

Outra estreia muito esperada por aqui na lista dos filmes no cinema 2019 é “Boy Erased”, longa que também conta com elenco de peso: espere por Nicole Kidman, Russell Crowe, o diretor Xavier Dolan e até mesmo o cantor e ícone de estilo Troye Sivan.

“Boy Erased” conta uma história que parece cada vez mais comum no contemporâneo – apesar das pautas LGBTs terem tido algum avanço na história recente, existe uma onda conservadora que insiste em patologizar qualquer dissidência sexual que desvie da norma heterossexista. Jared, interpretado por Lucas Hedges, tem 18 anos, é atlético, talentoso, educado e mora em uma cidade extremamente reacionária. O adolescente é filho de um pastor de igreja batista, o que torna delicada sua exposição enquanto gay.

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Em um dado momento, ele é confrontado pela sua família que coercitivamente decreta que ou ele perderia sua família e seus amigos, ou ele deveria entrar em um programa de “reabilitação sexual”, que buscaria a “cura” de sua homossexualidade. A sensação de aprisionamento do protagonista também é a nossa durante quase todo o longa, que nos faz testemunhas oculares da violência psicológica vivida por Conley na década passada (e que é replicada mundo afora e faz milhares de pessoas sofrerem):

“A fé é uma coisa tão estranha. Pode ser uma ferramenta incrivelmente poderosa para sobreviver a algo e também pode ser algo que o mantém preso a uma visão de mundo fundamentalista por muito tempo. Sair desse sistema é incrivelmente difícil. Há muitos ativistas que pedem que as pessoas saiam de suas cidades e de suas casas, e vão para outro lugar, mas muitas vezes se esquecem que as pessoas não têm dinheiro, não têm capacidade social para fazer isso sem se perder.

Eles também ignoram o trabalho psicológico que vem do abandono de tudo que você já conheceu. Não é fácil, e eu acho que em áreas metropolitanas maiores há uma tendência a esquecer como é estar em terra em muitas dessas cidades em todo o país, e mesmo que não queiramos, temos que educar as pessoas que perpetuaram essa intolerância desde o começo”, diz Conley.

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O filme é inspirado e orientado pelo livro “Boy Erased: A Memoir of Identity, Faith, and Family”, de Garrard Conley. No Brasil, o livro sai pela Editora Intrínseca, com o título “Boy Erased – Uma Verdade Anulada”.

Em seu livro “Problemas de Gênero”, a filósofa norte-americana Judith Butler trata a heterossexualidade como uma forma de desejo compulsório: de fato, vivemos em um mundo que nos incentiva a todo o tempo viver dentro de uma matriz heterossexual, onde os planos são casar, ter filhos e morrer – não há qualquer possibilidade para além desse “design de vida”. No Brasil, existem registros de clínicas que tentam “re-orientar” pessoas LGBTs para que elas tornem-se heterossexuais, contrariando inclusive a Organização Mundial de Saúde que desconsidera a homossexualidade como doença desde os anos 70 – talvez essa seja a máxima prova de que Butler esteja correta.

Focado em tirar o máximo das interpretações do seu time de atores, o diretor apoia-se no talento de Nicole Kidman e Russel Crowe, que dão luz a pais que não necessariamente são monstruosos, mas humanos em situação de fábulo que não conseguem aceitar a possibilidade da existência de uma gama de desejos sexuais e identidades não-heterossexuais. O acampamento para onde o filho dos pastores é enviado é um ambiente perverso, com sessões de tortura que nem os próprios torturados podem sequer compreender – o título aqui, “Garoto Apagado”, cai como uma luva, serve de metáfora para entender os processos pelos quais pessoas LGBTs passam – são sempre indivíduos marginalizados, que não gozam de direitos ou visibilidade.

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Vale notar que “Boy Erased” acontece durante a Era Trump dos Estados Unidos – uma potente resposta estética a um governo que tem como uma de suas bandeiras o masculinismo de seu ícone representativo, o “bufão” da economia, branco, heterossexual, grosseiro e masculinista Donald Trump. O livro de memórias foi lançado antes da eleição de Trump, e Conley provavelmente não teria escrito a mesma versão agora:

“A administração de Trump é institucionalmente anti-LGBT. Escrevi o livro quando Obama foi presidente, e tive a preocupação de humanizar meus pais, mas no atual contexto, sinto que é quase pedir demais a empatia de pessoas que tem essa masculinidade tão toxica. Não sei se teria escrito o mesmo livro agora. Eu acho que teria ficado mais furioso e poderia não ter sido tão indulgente.

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Há uma estranha ironia no fato de que, por causa das coisas sobre Mike Pence apoiando a terapia de conversão, na verdade, a terapia de conversão virou manchete e agora é mais fácil chamar a atenção das pessoas. Eu não diria que sou grato por isso, mas é uma oportunidade. É lamentável, mas isso é algo em que o direito foi investido por muito tempo. Eles vão jogar a comunidade LGBTQ sob um ônibus a qualquer momento apenas para marcar pontos políticos. Estamos definitivamente em um ponto de virada. Vamos parar de fingir que existe política de respeitabilidade e vamos ser tão radicais quanto precisamos.”, diz Conley, escritor do livro que inspira “Boy Erased”.

Os diretores de “Boy Erased”, e “Beautiful Boy” buscam trazer para o cinema 2019 contextos sobre conflitos que envolvem adolescência e o lugar das masculinidades em nossa sociedade: os dois garotos são extremamente diferentes, mas em comum tem pais que não compreendem seus caminhos e perspectivas em relação a vida. Já assistiu o filme ou leu o livro? Diz pra gente o que você achou nos comentários!

Sobre o tema LGBT no cinema, veja também nossa lista de livros com personagens queer adaptados para os cinemas que valem a pena assistir e re-assistir.

Fotos: ®Reprodução

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