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A arte e as questões sociais: quem tem medo de queer art?

Postado por Alisson Prando / 3 November, 2017

Através de grupos conservadores, uma exposição que teria um público restrito à classe média sulista atraiu atenção midiática internacional.

‘Queer’, termo em inglês, que vem sendo apropriado no Brasil de diversas maneiras, quer dizer algo como abjeto, excluído, disruptivo, fora de lugar, fora do eixo, fora da instituição – logo, fora do Museu.

Durante os anos 90, através de textos como ‘Problemas de Gênero’ da norte-americana Judith Butler, ‘História da Sexualidade’ do filósofo francês Michel Foucault ou ‘Manifesto Contrassexual’ de Paul B. Preciado, as identidades dissidentes, ou queer, por assim dizer, ganharam força em debates acadêmicos e artísticos – válido dizer que esses textos não criam as vivências queer – Madame Satã, Holly Woodlawn e Dzi Croquettes já estavam aí há muito tempo – mas fomentam discussões e “visibilizam” identidades e vivências que são esquecidas, propositalmente, pelo sistema heterocisnormativo.

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Bruno Novaes é um artista jovem brasileiro cujo trabalho tem sempre alguma relação com o corpo

No Brasil contemporâneo, através de campanhas “inclusivas” lá estão personagens LGBTQIA enquadrados nas telas de propagandas de gagdets como celulares, TVs e iPads, marcas que utilizam não só simbolismos da comunidade LGBTQIA, mas também personagens desse movimento – É preciso ascender a questão: o que há por trás do interesse dessas marcas e corporações em busca da cooptação dessas identidades?

O mercado transforma todos em consumidores. É interessante que as grandes empresas sacaram logo e adotaram o discurso da diversidade e o transformaram em produto. Já que é enorme o número de pessoas que se enquadram na terminologia, o que não significa que na esfera dos consumidores estejamos prontos a conviver com as diferenças, absolutamente, estamos muito longe disso. Pelo lado positivo, entendo que pretende-se estabelecer um caminho para aproximação com esse processo, mas a jornada é longa“, diz Thomaz Pacheco, galerista da OMA Galeria.

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Livro “Horas de Combate”, por Guerra Junqueiro, exposto no Queermuseu

Um tiro que saiu pela culatra recentemente foi a exposição ‘Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira’, financiada com 800 mil reais pela Lei Rouanet, no Santander Cultural na cidade de Porto Alegre, prova o ponto de vista de Thomaz de que sim – a jornada de uma apropriação ética de artes/vivências queer é longa, afinal de contas, a empresa que se apropriar desse campo conceitual e simbólico deve ter desafios como engajar e incluir pessoas LGBTQIA no seu quadro de funcionários em todos os cargos, organizar e estruturar a sua empresa a fim de respeitar as identidades e expressões de gênero dessas pessoas, e construir uma política de atendimento ética com seus clientes LGBTs. Se o interesse for somente o lucro, então o discurso torna-se incoerente, e como visto pelo ‘QueerMuseu’, não funciona:

Se você é um banco, uma grande empresa, enfim, e quer se apropriar de discussões atuais da sociedade, como, por exemplo, a questão queer, você tem que estar pronto para ser atacado. Aí vale a apropriação. Agora, se no primeiro grito você fecha tudo e finge que nada aconteceu, você é, no mínimo, boçal“, comenta Fernanda Paola, que gerencia o Espaço Revista Cult, grupo que fomenta discussões sobre gênero, arte e feminismo em São Paulo.

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Obra de Nino Cais, cortesia da Galeria Casa Triângulo para o Queermuseu

A mostra, com curadoria de Gaudêncio Fidelis, reunia 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade sexual. As obras – que percorrem o período histórico de meados do século XX até os dias de hoje – são assinadas por grandes nomes como Adriana Varejão, Cândido Portinari, Fernando Baril, Hudinilson Jr., Lygia Clark, Leonilson e Yuri Firmesa.

Um mês depois da exposição em cartaz, pipocaram protestos e piquetes nas redes sociais – não é possível falar aqui sobre censura – com registros das obras tirados fora de contexto, como pintura de um Jesus Cristo com vários braços (a obra ‘Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva’, de Fernando Baril) e imagens de crianças com as inscrições ‘Criança viada travesti da lambada e Criança viada deusa das águas‘, da artista Bia Leite.

As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos [de críticos] mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo“, disse Gaudêncio Fidelis, curador da Mostra em entrevista ao jornal O Globo.

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Trabalho “Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva”, de Fernando Baril causou polêmicas religiosas no Queermuseu

Com a pressão do grupo Movimento Brasil Livre (MBL), articuladores políticos reacionários que tem estratégias que mobilizam os afetos nas redes e desviam as atenções do saqueamento vitalício que acontece no país desde que este foi colonizado, conseguiram fechar a exposição. Em nota, o Santander Cultural que cedeu à pressão e desrespeitou tanto seu público, quanto os artistas que estavam sendo exibidos na mostra diz:

Ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo. Quando a arte não é capaz de gerar inclusão e reflexão positiva, perde seu propósito maior, que é elevar a condição humana“.

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Obras de Rogério Nazeri (esquerda) e de Thiago Martins (direita) foram expostas no Queermuseu

Depois desse pedido apologético, jornais como The Guardian e El Pais estamparam em suas manchetes que o Brasil agora tinha exposições canceladas por conta de temáticas de gênero e sexualidade, o que, pelo lado positivo, acabou atraindo muito mais atenção para a exposição do que ela teria se somente localizada em Porto Alegre, e pelo lado negativo, fomentou um debate que muitas vezes foi feito de maneira rasa e superficial por seus articuladores e fontes.

Nesse panorama estético-político, vale perguntar-se: o que é a arte? Uma possível resposta para isso é dizer que a arte é uma experiência sensorial que provoca, liberta, dialoga, e mais do que tudo propõe questões – a arte em si nunca apresenta respostas, mas sim levanta perguntas e talvez seja justamente por isso que os conservadores não conseguem lidar com ela.

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Trabalho criado pelo artista Bruno Novaes intitulado “Apostila de Ciências: Ensino Fundamental” aborda o conceito de (trans)gênero

Depois dos piquetes realizados pelo MBL, o MASP agora compra a briga com o conservadorismo e realiza a exposição ‘Histórias da Sexualidade’ – válido dizer, programada anteriormente às polêmicas do QueerMuseu em Porto Alegre.

Com um elenco de grandes nomes, de Picasso, Renoir e Manet a Adriana Varejão, Leonilson e Leda Catunda, a mostra reúne obras do acervo do museu e de outras coleções para discutir corpo, erotismo e gênero.

Fruto de dois anos de pesquisa dos curadores Adriano Pedrosa, Lilia Schwarcz, Camila Bechelany e Pablo León de la Barra, as cerca de 300 obras, entre desenhos, esculturas, pinturas, filmes e fotografias, serão divididas em nove núcleos temáticos, que tratam de temas como o corpo nu e a religiosidade. Com obras que retratam sexo explícito e violência, a mostra ganhou classificação indicativa 18 anos. A programação também conta com seminários e oficinas.

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Obras dos artistas Egon Schiele (esquerda) e Jean Auguste Dominique Ingres (direita) são expostas no MASP

Com ingressos à R$ 30, a exposição já teve grande recepção do público e contou com apoio virtual e físico de grupos como #342Artes, #TodosPelaArte, #CensuraNuncaMais e ativistas de MSTS e Marcha da Maconha decidiram formar um ‘cerco’ no dia 19/10, em sua abertura, em torno do museu, para impedir piquetes ou ações violentas de grupos que protestam contra exposições. Você pode obter ingressos para a exposição aqui.

Fotos: Divulgação | OMA Galeria

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