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Rapper Fashionista, Rico Dalasam é o novo nome do pop brasileiro

Postado por Alisson Prando / 12 October, 2016

‘Nós somos tão colonizados quanto em 1500.’ – Rico Dalasam

De alguns anos para cá, uma cena musical fortíssima de artistas brasileiros vem mudando o imaginário coletivo acerca de temas como gênero e sexualidade: Thiago Pethit, Johnny Hooker, Karina Buhr, Karol Conká, Liniker, entre outros.

Um dos nomes de maior destaque dessa cena é Rico Dalasam, rapper, negro e gay. Em pouco tempo de carreira, Rico Dasalam fez sua vida transformar-se: de cabeleireiro em Taboão da Serra, tornou-se ícone POP brasileiro de moda, videoclipe e música. O artista fez shows em palcos grandiosos e disputados para estreias de discos de ponta, como o Auditório do Ibirapuera, Itaú Cultural e o Z Carniceria – onde o rapper recebeu a What Else Mag, convidando também para a noite Raquel Virgínia e Assucena Assucena – vocalistas trans da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. Não é por menos – só em seu disco ‘Orgunga‘, Rico Dalasam trabalhou com grandes produtores brasileiros, como Pifo, Arthur Joly e Xuxa Levy.

Multifacetado e pós-Gaga, Rico Dalasam é ousado, veste-se como quer e é considerado um dos artistas mais fashionistas em atividade no país. Bate no peito, orgulhoso, dizendo que é negro e gay – o primeiro rapper do país a fazer isso. Nos bastidores do palco do Z Carniceria, antes de se apresentar e calçar poderosos saltos altos, Rico conversou com a gente sobre moda, o cenário político do país e suas inspirações:

Como você decidiu se tornar artista?

As artes sempre estiveram muito presentes na minha vida, seja pela moda, desenho, poemas. Escrever poemas, na verdade, foi o que me deu bagagem, até que um dia eu pensei que eu podia cantar aquilo. Ser cantor não era meu plano inicial.

Você escreve desde pequeno?

Desde o começo da adolescência. Foi quando eu comecei a escrever.

Um dos seus primeiros singles é “Aceite-C”. Como foi o processo de aceitação da sua homossexualidade?

O processo da aceitação da minha homossexualidade aconteceu depois que eu me aceitei e me identifiquei enquanto negro dentro da sociedade, e só a partir daí eu pude perceber a grandeza que eu tinha na minha existência e foi mais fácil me relacionar com a minha identidade, minha orientação…

É difícil ser gay e negro no Brasil?

É sim, mas ser negro é mais difícil.

Como foi o processo criativo de ‘Orgunga,’ seu primeiro álbum?

O ‘Orgunga’ tem praticamente duas partes: uma parte em que é uma continuação do meu EP, ‘Modo Diverso’, e a outra parte eram dilemas e situações que eu precisava dividir e que eram novas experiências para mim. Eu quis fazer uma sonoridade que conversasse com as minhas referências no Brasil e continuar com os graves. Depois, eu trouxe a pesquisa de música árabe. No EP, todas as produções são de Phillip Neo. Já no disco, cada produção é de uma pessoa. Phillip foi o primeiro cara que quis criar batidas para que eu cantasse em cima, depois de eu ouvir muito ‘não’ de várias pessoas.

Foi difícil encontrar um músico que quisesse assinar o trabalho de um artista gay?

Muito. Necessitava que o músico soubesse fazer batidas de Rap, e você sabe como são os homens dentro do Rap, não é? (risos). Mas eu tenho construído meu próprio caminho, e isso faz com que eu cante e toque em lugares onde Rap nem toca.

Como é vir de um lugar periférico e estrelar em palcos disputados por grandes músicos do país?

Acho que são caminhos… tem dias em que a gente toca em lugares bem fuleiros também (risos). A gente vai dosando, levando a nossa música para vários lugares diferentes.

Que artistas você ouvia na sua adolescência que ainda influenciam a maneira como você produz música atualmente?

Lauryn Hill, Tupac Shakur, Notorious Big, Nas, Djavan, Alcione e muito pagode. Todos os pagodes que tocavam nas rádios nos anos 90, eu sei, e ainda ouço…

O cenário político brasileiro te estimula ou te assusta?

Assusta. Mas não há como me desestimular… tem sido assustador. Faz a gente entender que se a marcha antes estava leve, ela vai ficar cada vez mais pesada e se a gente antes estava cantando para melhorar, agora a gente canta com mais força para que não piore ainda mais.

Embora João Dória ainda não tenha entrado na Prefeitura de São Paulo, o que você acha da eleição dele no primeiro turno?

Isso reflete o equívoco das periferias e o quanto as pessoas ainda não tem esclarecimento político. Reflete também quanto a gente é colonizado. Nós nos vemos como pessoas avançadas, porque tivemos algumas oportunidades de consumir, mas no final das contas, nós ainda estamos trocando tudo por espelhos, pentes… Nós somos tão colonizados quanto em 1500.

Existe uma cena queer muito grande no Brasil, artistas que versam sobre gênero e sexualidade. Por que você acha que isso tem acontecido?

A gente faz parte de uma mesma geração, temos visões de mundo parecidas, todos temos entre vinte e trinta anos. Cada um cresceu em um lugar e tem sua história, mas temos uma concepção de mundo parecida e temos colocado a cara. E essa geração mais nova – de dezesseis ou quinze anos – quando desembocar nas artes, vem outra safra, com outra visão de mundo…. Na minha época de escola, não haviam muitos grupos gays – cada um ficava em um canto. Hoje, quando eu vou falar em escolas, percebo que os gays andam juntos. Não quero dizer que temos de andar em guetos, mas por uma questão de resistência e identidade isso é legal. Imagine quando isso se tornar social ou artístico na vida adulta? Isso tem um poder imenso!

Você tem uma relação muito forte com moda no seu trabalho. Existe alguma tendência que você não usaria nunca?

Eu comprei duas blusas que eu não usaria nunca – são duas blusas femininas com decote ombro a ombro, sabe? Geralmente, eu nem compro roupas no setor de moda masculina – minhas calças são femininas. Eu costumo comprar no setor feminino, acho as roupas que eu quero em tamanho grande e uso.

Qual sua peça favorita do seu guarda-roupas?

Uma jaqueta linda que eu comprei quando fui a New York!

Qual era seu programa favorito da antiga MTV?

Disk MTV!

O que você gostaria que as pessoas soubessem sobre você que elas ainda não sabem?

Eu faço música. As pessoas não gostam de legitimar Rap enquanto música e eu faço música. Quero que prestem atenção no que eu escrevo. Sou compositor.

Agradecimentos especiais à Flora Miguel e Equipe Z Carniceria.

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