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Siso
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Conheça o Universo POP Debochado do Cantor Mineiro SISO

Postado por Alisson Prando / 29 May, 2018

O músico mineiro Siso divulgou recentemente seu disco, “Saturno Casa 4” com participações especiais e influências de David Bowie, Depeche Mode e funk melódico.

Siso significa tino, bom senso, jurisdição. Pode significar também os últimos dentes molares de cada lado do maxilar que nascem perto da idade adulta, e é também o nome artístico de David, que acaba de lançar seu primeiro disco, “Saturno Casa 4”:

A inspiração inicial foram os dentes, mesmo. Pensei especialmente no fato de os sisos despontarem numa circunstância de dor e de um processo de maturação do corpo humano. Ao mesmo tempo, tem o fato de eles hoje serem dentes vestigiais, cuja função deixou de existir no avançar da linha evolutiva. Vejo essa “descartabilidade” dos sisos como algo que se comunica com uma leitura rasa comumente feita da música pop — com a qual não concordo, claro. Então dá para estabelecer aí tanto uma ironia quanto um ponto de tensão. Siso é um nome que condensa simbolicamente tanto uma busca por bom senso quanto uma série de questionamentos do amadurecer, que são assuntos muito presentes nas minhas músicas.”

Siso

O álbum é composto de 10 faixas (incluindo uma inédita escrita pela por Letrux), também conta com a participação de Paula Cavalciuk e foi produzido por Siso ao lado dos brasileiros Christopher Mathi e Lasyten, do grego Alexis Gotsis (Os Amantes Invisíveis) e do kosovar-americano Mettabbana:

“Saturno Casa 4 é um disco que vem de um processo de aprendizados duros, em que precisei remover a idealização de muitas coisas e aprender a lidar com elas no registro da realidade e da crueza, muitas vezes aceitando meu papel dentro de problemas. Esse posicionamento astrológico, que eu tenho no meu mapa natal, foi o guarda-chuva que uniu essas narrativas de aprendizado. Saturno é visto na astrologia como o professor rígido, que chega cobrando novas posturas nos seus períodos de retorno, e o fato de estar na casa 4 significa atuar dessa forma no campo das raízes e das estruturas. E o disco explora estruturas de todos os tipos: o próprio corpo, a memória, o processo de crescimento, a família, a escola, a igreja, a cidade, enfim. Mas sempre tento abordar esses assuntos num registro pessoal, sem querer dogmatizar nada ou encapsular as coisas em certezas.”

Siso

Em Saturno Casa 4, Siso remonta sons que ele ouvia quando mais jovem, entre alguns o pop, o charm e o funk melody, dois dos estilos mais conhecidos e ouvidos nas periferias belorizontinas durante a década de 90. Já nas composições – oito das dez músicas do álbum são de sua autoria -, Siso evoca questões ao redor dos apegos de cada pessoa:

As parcerias que surgiram para o disco surgiram de modo muito natural e num registro de afeto, o que deixou um rastro bonito pelo disco. Conheço Leonardo Onerio (autor de “Saudade” e co-autor de “Onde Termina a Calçada”) desde 2012, e sempre rolou uma afinidade criativa muito grande entre nós. Mesma coisa com o Alexis Gotsis (co-produtor de “Violado” e co-autor/co-produtor de “4 de Ouros”). Já era muito fã da banda dele, Os Amantes Invisíveis, e, quando ele e Marina (Rezende, também d’Os Amantes) mudaram-se para São Paulo há alguns meses, tive a chance de produzir coisas com eles. Christopher Mathi e eu tocamos juntos desde 2015 e ele co-produziu o “Terceiro Molar”, então já tínhamos uma forma estabelecida e coesa de trabalhar. Lasyten (Stanley Gilman) também toca conosco ao vivo desde o ano passado, então foi um processo natural. Com Letrux, nos conhecemos no fim de 2015. Pouco depois, ela viveu um tempo em São Paulo, ficamos amigos e fizemos shows juntos. Ouvi “185 Centímetros” pela primeira vez nessa época e pedi para gravar. Como ela tem de fato 1,85m de altura, minha versão virou “198 Centímetros”. Depois, quando fiz “O Amor é 1 Arma de Destruição em Massa”, chamei-a para cantar junto e ela topou. Já Paula Cavalciuk e eu nos conhecemos no ano passado. Fiquei impactado pela voz e pelo modo como ela conta as próprias histórias nas letras. Então, quando surgiu “Onde Termina a Calçada”, que é das músicas mais íntimas e narrativas do disco, fiz o convite e Paula disse sim na mesma hora. Mettabbana foi o único cuja colaboração de forma indireta. Christopher e eu criamos um arranjo sampleando uma faixa dele e ele nos liberou para fazermos o que quiséssemos, dando apoio total ao trabalho.”

Siso

Como a moda é a melhor amiga de um artista POP, Siso enriquece seu visual através de ensaios artísticos que dão base ao conceito de seu disco:

Bowie é inspiração sempre, pela fluidez e desenvoltura do caminhar artístico, permitindo que o tempo o transforme. Os sensos de persona e espetáculo de Grace Jones, St. Vincent e FKA twigs também me movem muito, assim como os trabalhos de musicistas que vão desenvolvem isso numa pegada mais DIY, como M.I.A. Falando estritamente de artistas da imagem, alguns dos trabalhos mais próximos do meu coração são os de Robert Longo, Rafael França, Jodorowsky, Pipilotti Rist, Bergman, Glauber e Claudia Andujar. Mas a parte visual é a área do meu trabalho que diria ser a mais permeável a influências externas. Quando colaboro com artistas da imagem, muitas vezes sugiro linhas gerais em vez de chegar com uma proposta estabelecida, e os parceiros vão colocando ideias. A coisa caminha por um caminho inesperado e eu aceito a deriva.”

Siso

Tem-se feito cada vez com mais frequência um debate sobre a moda, onde as pessoas consomem brechós ou marcas indies ao invés das famosas fast fashions, e o artista acompanha esses processos e debates:

“Tendo a seguir essa linha, garimpando peças em brechós ou priorizando marcas menores e autorais, que estabelecem um processo de produção mais humano e dão vazão a outras possibilidades criativas. Admiro muito o trabalho de estilistas como o Coletivo de Dois e Vicente Perrotta, que criam peças interessantes a partir de materiais descartados pela indústria da moda. Gosto dessa ética de trabalho.”

Siso

Com esse registro e altas doses de ironia, Siso pretende alcançar o maior número de pessoas possíveis, além de fazer com que elas dancem e encarem seus próprios monstros:

Minhas músicas carregam uma dose subliminar de humor na maior parte do tempo. Você precisa cavar, mas acaba encontrando o deboche quando presta a devida atenção“.

Fotos: ®Reprodução

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